O tempo estava nublado e ventava bastante. Ventos de agosto. Já ouvir dizer que são cruciais para a polinização das plantas. Depois, em setembro, floresce uma tímida primavera, sem exageros de flores ou de cores. O Pantanal só se alegra de verdade quando começa a chuvarada. As chuvas devolvem o verde às paisagens ressequidas e empoeiradas; e ainda abastecem de água e nutrientes dos rios, a planície tão abatida pela estiagem. Para quem mora na região ainda resta a preocupação de que, se chover além da conta, a dádiva pode se transformar em enchente.
A madrugada não foi tão gelada quanto algumas anteriores e a temperatura não se elevaria muito ao longo do dia. Com a temperatura amena nossa marcha pareceu bastante calma e confortável. Até os cargueiros pareciam estar mais "comportados". Talvez tudo não passasse de reflexo da boa noite de sono que tive, ou quem sabe dos bifes do jantar.
Quiz saber de Kelé como foi que ele se tornou cozinheiro.
— Desde que eu era gurizote, quando eu comecei a boiadear, eu já tinha gosto por ajudar o cozinheiro. Devagarinho fui aprendendo a fazer o arroz carreteiro, feijão com carne, o macarrão... e assim foi indo. Na verdade não tem muito segredo no preparo da comida. O trabalho maior é de montar a cozinha e cuidar dos cargueiros. Mas, o que acho muito importante é o cozinheiro ter asseio. Ninguém gosta de cozinheiro relaxado. Eu também gosto de sempre estar fazendo comidas diferentes. Ninguém suporta comer a mesma coisa todo dia — explicava.
Perece que tanto interesse quanto eu tinha em sua vida de cozinheiro de comitiva ele tinha na minha vida de universitário. Perguntou como era estudar, se aprender era muito difícil... essas coisas. Dava impressão que, não só para o Kelé como para todos os pões que eu conheci, estudar era coisa de outro mundo. Parecia que eles não se julgavam capazes. Eu sempre discordava dizendo que tudo não passava de mera falta de oportunidades.
— Aprender não é difícil não, Kelé. Eu acho até que é pouco esforço, pelo tamanho das recompensas. Como você se sentiu quando fez, sozinho, o primeiro arroz carreteiro?
— Uai, muito bem!
— Pois é, o grande jornalista aqui não sabe nem fazer arroz branco. (Continua)

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