Capítulo 07, Parte 05

             — Somos! — o cozinheiro respondeu acenando para o homem.
          — Eu sou da fazenda Belém. O capataz da Santa Aparecida me passou um rádio ontem à noite avisando que "ocês" estavam indo pra Arco-íris buscar gado pro leilão. Lá na fazenda tem um lote pra mandar pro leilão também. Será que dá pro cês "passar" lá? — o jovem peão, ainda ofegante, havia retirado o chapéu de feltro marrom e coçava a cabeça enquanto falava. 
          — Olha... eu não posso falar pelo condutor, mas tenho quase certeza que ele aceita sim. A fazenda é muito longe daqui?
          — Não é não. Eu saí hoje cedo de lá e já estou aqui. Andando bem a gente consegue pousar lá — explicou o peão.
          — Como é que a gente pode fazer? — Kelé pensou um pouco, abaixando a cabeça, e depois continuou: — Faz assim... vamos seguir pelo seu caminho e ocê mostra um lugar onde a gente pode almoçar. Enquanto a gente prepara o almoço ocê volta pra mostrar o caminho pros "peão" que estão vindo beiradeando a cerca da Rancharia. Aí ocê aproveita e explica tudo pro condutor.
          — Tá certo! Eu sei de um açude que fica pertinho daqui. Rapidinho a gente chega lá. 
          Aproveitei enquanto o dois conversavam para apear e apertar as chinchas da minha tralha. Os burros cargueiros seguiram por mais uma boa distancia e pararam. Como se soubessem o que estava acontecendo, se puseram a pastar mansamente.
          Depois que a conversa terminou seguimos viagem pelo mesmo caminho por um tempo e depois entramos em um capão razoavelmente fechado que nos levou a uma grande clareira de vazante sem água.
          — Ocês vão direto nessa vazante que lá na frente vai ter um açude, mais ou menos beiradeando o capão. Não tem erro! — o peão explicava apontando o horizonte da clareira recoberta apenas com uma camada rala de capim nativo e que mais se parecia com uma pista de pouso com proporções gigantescas construída no meio de uma floresta de cerrado. — Enquanto isso eu vou voltar pra mostrar o caminho para os outros.
        — Está certo! — concordou o cozinheiro.
        O homem voltou pelo caminho de onde viemos e nós seguimos na direção indicada. Enquanto cavalgávamos eu pensava que, por mais estranho que podia parecer, nós havíamos acabado de mudar o destino  da nossa viagem para atender a um estranho sem ao menos perguntar-lhe o nome. Coisas do Pantanal! (Continua)

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