Capítulo 06, Parte 06

          Mais um tempo e passamos a ouvir o barulho dos peões chegando com o gado. Um deles galopeou na frente e abriu a porteira do mangueirão abandonado. Apesar de tomado pelo mato, o lugar ainda serviria para deixar a boiada enquanto almoçavam. Em meio a nuvem de poeira levantada, que acabou tampando completamente a visão enquanto eles entravam no mangueiro, os gritos se intensificaram por um tempo e, em seguida, cessaram por completo. O gado estava preso e a porteira foi fechada. 
            Os peões seguiram calmamente em nossa direção. Mais a frente vinham Marcindo, Nêro e o seu filho. Para mim era novidade que os dois viajariam com a comitiva. Mais um indício de que eram necessários maiores cuidados no começo da marcha. Os animais poderiam relutar ao terem de deixar os campos onde estava costumados a viver, sem contar o estresse natural causado pela viagem.
             Depois do almoço fomos, eu mais alguns peões, espiar a velha construção de madeira. Era um barracão comprido, coberto com telhas de amianto, e que tinha, bem no meio, uma varanda cercada por um muro baixo. Em um dos lados da varanda, separada por um janelão com balcão e por uma porta fechada, seguia uma cozinha com banheiro. Achamos melhor não nos aproximarmos muito dos cômodos, pois notamos que o interior do banheiro estava cheio de vespas — as maiores que eu já vi, diga-se de passagem — rodeando suas respectivas tocas de barro. Do outro lado da varanda havia um comodo fechado. Talvez a porta nem estivesse trancada, mas decidimos não abrir. Lá dentro podia ter animais  mais perigosos que as vespas do outro cômodo. Melhor não arriscar!
                Saímos da velha construção e demos uma volta pelo pomar. Haviam palmeiras, mangueiras, pés de caju e de algumas outras frutas. Em outras épocas aqueles pés deviam ficar carregados de frutas doces e saborosas. Infelizmente estávamos em agosto e as plantas mal conseguiam manter as folhas. 
           Um breve descanso para "abaixar" a comida e os peões partiram com o gado, levantando poeira e entrando pela estrada que atravessava a floresta em direção à Rancharia. Eu e o cozinheiro carregamos os cargueiros para, em fim, partimos também, encontrando-os novamente depois de alguns minutos. Tivemos dificuldades para ultrapassar a boiada por conta de a estrada ser estreita. Permanecemos na culatra até alcançarmos uma grande clareira onde podemos finalmente avançar, dando uma volta ao redor do gado. (Continua)   


Filho de Nêro, Nerô e Marcindo em frente ao barracão abandonado. 
                   

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