Desci até a beira da vazante para buscar água e passei um tempo observando a paisagem. Uma pequena amostra da exuberância da beleza pantaneira. Por capricho a paisagem mudava com o ciclo das águas. Como um lugar desses pode ter sido abandonado? Como pode?
Pendurei as latas d'água nos ganchos da corrente que o cozinheiro havia prendido no tronco da mangueira. Depois ele me disse que eu poderia descansar enquanto ele cuidaria do almoço.
— Tem certeza de que não precisa de ajuda, Kelé? — perguntei.
— Não, obrigado! — o cozinheiro terminava de acender o fogo com auxílio de óleo diesel que levava em um tamborzinho. — Mas se você servisse um tereré para nós...
Corri até onde estavam as minhas tralhas e peguei a minha guampa, que estava presa com uma tira de couro trançado em um dos lados do arreio. Assim ela ficava ao alcance das mãos para tomar tereré sem precisar apear. A erva era uma cortesia do dono da comitiva para todos os peões, e também ficava ao alcance das mãos, normalmente guardada em um dos bolsos da badrana. Quando acabava era só levar o pacote vazio para o cozinheiro colocar mais um pouco.
Tomando tereré eu acabei me lembrando de um causo que o Toninho, o peão da Santa Cruz, contou certa vez lá no Corixão. Comecei a narrar para Kelé.
***
"Mas rapaz, o cê não acredita o que que me aconteceu! Uma vez o patrão mandou eu roçar a beirada de um capão da Santa Cruz. Tá bom! Nessa época eu tinha um guaipequinha que chamava Pipoca. Chamei o Pipoca, peguei a foice e fui. Já tinha roçado um eito grande quando vi que vinha vindo pro nosso lado dois porco monteiro bem gordo. Eu não tava com revolver, só com a foice mesmo, mas na hora eu tive um plano. Pensei comigo: bom, eu atravesso o capão e espero os porco do outro lado. Quando eles sair eu pego a foice e... VAP... dou uma foiçada e, pelo menos um eu mato.
Chamei o Pipoca e cochichei no seu ouvido o meu plano. Depois eu falei que era pra ele dar a volta por de trás dos porco, bem quetinho pra eles não ver, e depois tocar os bicho pro lado do capão. Aí nois se separemo. O Pipoca foi dar a volta nos porco e eu fui pro lado do capão. (Continua)

Nenhum comentário:
Postar um comentário