Soltei a bruaca, que ficou pendurada nos pinos do arreio. Depois fui passando os dobros e lonas para o cozinheiro empilhá-los encima do burro. Para terminar ele ainda cobriu a carga com o "tilim", uma capa de couro com tiras para amarrar nas alças das bruacas, e com o "sobre-tilim", outra capa, só que de lona, que é amarrada sobre o "tilim".
Enquanto ajeitávamos as tralhas do burro vimos os peões passando com o gado pelo outro caminho, bastante afastado. Também era possível ouvir os gritos e os estralos do "piraim", ecoando como tiros de arma de fogo pelo lugar. Agora a viagem deles ficaria bastante vagarosa em relação ao ritmo que praticávamos tocando apenas os 12 bois. Tocavam 210 vacas, 14 touros e 6 garrotes, animais da fazenda Santa Aparecida que iam para o leilão.
Partimos novamente tocando os cargueiros vagarosamente. Kelé achou melhor diminuirmos o ritmo da nossa marcha para evitar que a carga caísse novamente. Mesmo assim ultrapassamos os peões que foram ficando pra trás até sumirem das nossas vistas. Depois de um certo tempo a cena se repetiu. A carga foi tombando para a direita e o cozinheiro acelerou para tentar alcançar o burro, mas não deu tempo. Foi tudo para o chão de novo. Refizemos o mesmo processo, o que demorou alguns minutos, e ainda conseguimos partir antes que os pões nos alcançassem.
Mais alguns minutos e chegamos na fazenda abandonada outra vez. O cozinheiro escolheu armar a cozinha sob a sombra de uma mangueira, bem ao lado da velha construção de madeira.
— Agora que eu sou o copeiro você vai ter que aceitar a minha ajuda! — brinquei.
— Tá certo! — respondeu Kelé dando rizada. — Então, enquanto eu vou ajeitando o lugar você pode ir descarregando os cargueiros! Só tome cuidado para não levar um coice!
Eu ainda não tinha pensado na possibilidade de tomar um coice, mas ela existia e era grande. Dizem que burros e mulas podem ser muito mais traiçoeiros que os cavalos. Então passei a tomar bastante cuidado ao me aproximar dos animais. Retirei os "tilins" e "sobre-tilins" e fui empilhando as cargas no lastro improvisado que Kelé armou com pedaços de madeira. Enquanto isso o cozinheiro ia retirando, com a inchada que fazia parte da carga, as folhas acumuladas no chão do lugar onde pretendia montar a cozinha. Descarregamos as bruacas em dois e depois retirei os arreios e os buçais dos animais. (Continua)

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