Capítulo 05, Parte 08

    — Tá certo! Mande um abraço pro seu avô! — recomendou o capataz.
        — Será entregue! 
        Me afastei do grupo na direção da palmeira que Nêro havia indicado, próxima do casarão que deveria ser dos patrões. A palmeira era razoavelmente alta, mas havia uma taquara bem comprida escorada no tronco que servia para derrubar os cocos. Meio desajeitado cutuquei um cacho com o bastão e três cocos caíram de uma vez. Já eram mais que suficientes.
         De volta à varanda do galpão  encontrei a turma bastante descontraída tomando tereré e jogando conversa fora com o capataz. Desde o começo da viagem que não os via tão despreocupados. João conseguiu o seu pedaço de couro. Também já estavam embrulhados em bolsas de sal as mandiocas e uma boa manta de carne de sol. Ficamos mais um tempo por ali e depois voltamos para o acampamento. 
        Com o resto da tarde de folga, cada um foi procurar o que fazer. Kelé foi lavar as suas roupas na lagoa. João começou a fazer o seu rabo de tatu enquanto Guilherme remendava a tralha de arreio. Marcindo aproveitou para ouvir seu rádio AM a pilha, deitado em sua rede enquanto os demais tomava tereré e conversavam ao redor da tenda da cozinha. Com jeito, para não se cortar, consegui furar os cocos e enchi uma grande caneca que pegara emprestado com Kelé. 
        Alguns aceitaram tomar um gole quando eu ofereci. Dentre eles, o que ficou mais contente foi Divino. Imediatamente ele correu onde estava as suas tralhas e pegou a sua guampa de tereré. Antes que eu servisse ele ainda deu umas batidas no fundo da guampa pra cair um resto de erva lá de dentro. Não adiantou muito. Pedaços de erva ficaram boiando na água depois que eu servi. Mesmo assim Divino tomou a água com gosto, sugando através de sua bomba de tereré. Entre um gole e outro ele agradecia:
        — "Ahooo", Jornalista, como você adivinhou que eu estava doido pra tomar água de coco?
        E assim, bem humorada, a tarde foi passando e a noite caiu. Quando deitei na rede para dormir já não sentia mais dor na garganta. Finalmente pude descansar. Ao menos por um tempo, até ter que levantar, no meio da noite, para embalar a minha tralha com a capa de chuva, pois começou a garoar. (Continua)

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