Mais tarde os peões voltaram novamente para o almoço. Depois de comer, enquanto fazíamos um breve descanso, o condutor deu a ordem:
— Junior, depois você vai com o jornalista procurar o capataz para pegar carne e mandioca. Já deixei ele avisado. Só espera mais um pouco que ele ainda deve estar almoçando.
Então ficamos os três no acampamento. Kelé ajeitava a cozinha pós almoço e Junior aproveitou a ocasião para limpar a sua garrucha com uma flanela. Pedi para ver e ele me passou a arma. Era uma 22 dois canos toda trabalhada com desenhos florais e cabo de osso, muito bonita, mas já bastante roída pelo tempo. Fazia lembrar as armas usadas em filmes de piratas.
— Quer comprar?
— Quanto você quer?
— Duzentos.
— Não, brigado! Não vejo muito o que eu pudesse fazer com uma arma.
— Eu trouxe ela "mais" pra ver se consigo vender para algum peão por aqui.
Depois de mais algum tempo fomos até os fundos do galpão, perto de onde ficava a casa do capataz. O lugar estava deserto e tudo o que se ouvia eram os discretos uivos do vento que se intensificavam, vez ou outra. Provavelmente Nêro — era assim que Marcindo chamava o capataz — estava em sua casa, fazendo sesta. Decidimos não incomodar, por enquanto. Não havia motivo para pressa.
Na varanda, que se estendia de um lado ao outro do galpão, haviam várias portas, provavelmente de alojamentos e depósito de ferramentas, todas fechadas. Sentei-me na beira do piso de concreto, encostando as costas em um dos esteios de madeira. Junior ficou andando, de um lado para o outro, fazendo um reconhecimento do local. Eu ainda me sentia um pouco abatido, não sei se por conta da garganta inflamada ou por puro cansaço. Talvez fossem os dois. Mais alguns minutos e eu já estava deitado do chão da grande varanda. O lugar era fresco e arejado. Adormeci.
Fui desperto pela conversa dos peões que chegavam do mangueiro.
— Nada do capataz? — Marcindo perguntou antes mesmo de apear de seu animal.
— Nem sinal, seu Marcindo. E já tem hora que estamos esperando — Junior explicava enquanto se levantava do chão. Também decidira tirar um cochilo.
— Eles estão vindo ali! — era João quem anunciava a chegada do capataz e do rapazote enquanto amarrava o seu animal um pouco mais adiante, na sombra de uma árvore. (Continua)

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