Ela também devia chamar a fazenda Santa Cruz três vezes ao dia no rádio amador, atender o telefone e, sempre que sobrava tempo, fazia colchas e tapetes de retalho, crochet ou ainda baixeiros de lã. Só descansava depois de lavar a louça do jantar, e no outro dia começava tudo de novo.
Pelo menos uma vez por mês os peões da fazenda Santa Cruz passavam alguns dias no Corixão para trabalhar o gado. Eram no mínimo cinco pessoas a mais para dona Dê servir café da manhã, almoço e jantar; o que dobrava o serviço.
Passei o resto daquela tarde ajudando o meu avô a consertar um colchete que estava com o arame arrebentado. Difícil era se concentrar no que estava fazendo, sabendo da grande aventura que iria começar no outro dia.
***
Aparentemente a febre tinha passado e a dor de garganta já não incomodava tanto. Perguntei, mais uma vez, se Kelé gostaria que eu ajudasse com alguma coisa, mas ele insistia em dizer que não. Chegou a um ponto em que até ele ficou sem ter o que fazer. Conversamos um pouco até, num sobressalto, ele decidir:
— Vou fazer um churrasco!
"Lampinou" (raspou) com a faca uma das varas que eu trouxera para suspender as toldas e espetou nela um pedaço grande da carne de sol. Naquele momento eu observei que os peões já voltavam do mangueiro. O cozinheiro puxou um dos lados da chapa que cobria o fogão, deixando a mostra um pedaço do fogo de lenha. Com jeito ele encaixou o espeto com a carne entre as paredes da trempe, encima do fogo, e o churrasco começou a assar. Levei um susto ao ouvir, quando os peões chegaram, que a carne já estava pronta. Achei que só comeria churrasco depois de pelo menos meia hora. A carne tinha mesmo aparência de assada porque toda carne de sol, mesmo crua, fica escurecida por fora, mas por dentro a carne ainda estava crua.
Sem dar qualquer importância os peões fizeram fila e foram tirando suas facas para cortar pedaços da carne, ainda no fogo. Depois mergulhavam o pedaço que haviam cortado e mergulhavam na farinha que Kelé havia servido em um prato.
— "Vamo", jornalista?! — José convidou.
Já que é pra ser um peão de verdade, é preciso comer como um peão de verdade. E também comi um bom pedaço da carne com farinha. Acho que foi a minha fome que fez aquele banquete improvisado parecer tão delicioso. (Continua)

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