Enquanto minha avó preparava o almoço, eu e meu avô fomos, de trator, até o leilão para encontrar o Panta, o responsável pelo leilão e pelas comitivas. Paramos próximo ao escritório, onde alguém nos informou que ele estava com o pessoal da comitiva no acampamento, sob as grandes sucupiras, há uns 100 metros dali.
Haviam vários homens no acampamento. Alguns tomavam tereré, outros consertavam suas tralhas, outros repousavam em suas redes... aquele era um dia de folga para eles. Um grupo de quatro ou cinco conversavam de pé próximos a uma camionete.
— Bom dia! — meu avô disse em voz alta.
Um deles veio nos receber:
— Bom dia, seu Belo! — apertou a mão de meu avô e em seguida a minha — Bom dia, rapaz!
— Panta, eu vim ver com você o negócio da viagem do menino — meu avô foi direto ao assunto, sabendo da correria de Panta para preparar o leilão que se realizaria nos próximos dias.
— Ah, sim, seu Belo. Eu conversei com o Marcindo, meu condutor, e ele falou que não tem problema. Seu neto tem as tralhas, tudo?
— Tem. Eu ajeitei uma tralha minha pra ele. Já ta tudo no Jeito.
— Tá certo. Eles vão sair amanhã no cantar do galo, aí você traz ele, de madrugada.
— Positivo, Panta! Amanhã, no cagar do pato, eu trago ele — meu avô ria da expressão que ele mesmo acabara de usar. (O cagar do pato era antes do cantar do galo que era antes do clarear do dia). — Apareça lá em casa pra tomar um café!
— Pois é, seu Belo, to meio na correria aqui. Ainda tenho que ir lá em Campo Grande e voltar. Mas, se sobrar um tempinho eu passo lá sim.
— Tá certo então. Até amanhã!
— Até amanhã, seu Belo!
Fiquei de coadjuvante na história. Não havia muito mesmo que eu pudesse falar. Era meu avô quem conhecia o Panta. Na verdade, eu estava meio perdido com tudo aquilo. Acho que a expressão "onde é que eu vim amarrar meu burro?" era perfeita para a situação.
Voltamos para a fazenda, onde o almoço já estava quase pronto.
Eu morria de pena da minha avó. Dava pra contar nos dedos as vezes que ela saía daquela fazenda. Só mesmo quando saía de férias, uma vez por ano. De resto, estava presa ao serviço interminável. Lavar roupa, limpar casa, rastelar o quintal, lavar as varandas, encerar o piso, rastelar o pomar, cozinhar, cuidar da horta... Tanto trabalho acabou lhe rendendo problemas na coluna. De vez em quando ela gemia de dor, mas não deixava de cumprir suas obrigações. (Continua)

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