Capítulo 05, Parte 02

      Quando o dia amanheceu, dois peões trouxeram a tropa que tinha passado a noite em um piquete lá pros lados do mangueiro. Arrearam os animais e partiram para o campo em companhia do capataz, que viera do galpão montando um cavalo pantaneiro. Juninho também foi chamado pelo condutor, de maneira que só ficamos eu e Kelé no acampamento.
        O cozinheiro estava sempre correndo de um lado para o outro. Uma hora ele ia na lagoa buscar água, um minuto depois ele já estava catando o feijão, mais algum tempo e ele lavava o arroz... só aceitava ajuda quando precisava mover algum objeto muito pesado, como as bruacas, por exemplo. Entretanto, durante àquela manhã não havia nada pesado que pudesse ser carregado. Peguei meu caderninho, sentei-me em um toco de madeira sob a lona da cozinha e comecei a anotar mais algumas recordações. 

                                                               ***

        Todos os dias, lá pelas nove da manhã, a dona Dermalina Oliveira Dolores (a dona Dê), minha avó e cozinheira do Corixão, acendia o grande fogão à lenha de aço inoxidável que ficava na cozinha da fazenda. A lenha de angico normalmente era trazida de caminhão, pelo Carlinhos, da fazenda Santa Cruz. Os troncos eram fatiados com a motosserra em pedaços de, mais ou menos, meio metro de espessura e, depois que os tocos já estavam no Corixão meu avô ainda teria que de cortá-los a machado para transformá-los em pedaços que coubessem no fogão. 
       Certa vez — eu me lembro muito bem desta passagem porque presenciei a cena —minha avó colocava lenha no compartimento do fogão quando, de repente, uma jararaca saiu de dentro de um buraco na madeira que ela segurava. A cobra passou bem próximo da sua mão. Fiquei admirado com a reação da minha avó que, ao invés de gritos proferiu amargamente "bicho inútil!" antes de matar a cobra com uma cabo de vassoura. Depois dirigiu-se a mim:
      — Dener, joga esse bicho no cano da fossa! 
       Na manhã do domingo, dia 27 de julho, um dia antes da nossa viagem começar, dona Dê tomou o chimarrão, fez o café e, em seguida, começou a varrer a casa, como de costume. Depois que a casa estava limpa ela ainda teria que rastelar o quintal, mas essa tarefa fui eu quem fiz naquele dia. Depois do chimarrão meu avô foi tirar leite e quando voltou a casa já estava limpa e o quintal rastelado. (Continua)  

Nenhum comentário:

Postar um comentário