Capítulo 04, Parte 09

      A lona amarela media quatro metros de comprimento por três de largura e estava empilhada com outras lonas e dobros junto às tralhas da cozinha. Pedi permissão para Kelé antes de apanhá-la e a levei até Marcindo, conforme ele havia pedido. 
    — Agora você procura dois coquinhos de bocaiuva! — o condutor parecia estar ficando menos ríspido na forma de me tratar. 
    Só encontrei os bocaiuvas lá para as bandas da sede da fazenda e, imediatamente, caminhando com certa pressa, voltei para entregá-los a Marcindo.
     — Jornalista, agora vou te mostrar a ciência da tolda. 
      As lonas de quatro por três não possuem o "amarrador" — buraco reforçado onde se pode amarrar cordas — bem no meio do sentido do comprimento; o que é necessário para amarrar a lona sobre a rede, em forma de cabana. Então, o condutor envolveu um dos coquinhos em uma das extremidades da lona, bem no local onde deveria ficar o "buraco"; em seguida amarrou um barbante em volta do coco, amarrando bem forte. Estava pronto um dos lados da lona. Ele recomendou que eu fizesse o mesmo do outro lado; o que fiz sem muito trabalho. Depois precisamos amarrar os dois barbantes nos mesmos esteios onde estavam amarrados os punhos da rede. Por último Marcindo arrancou, do meio de suas tralhas, seis vergalhões de ferro de, mais ou menos, meio metro, cada um. Ele me mostrou como se prendia as pontas da lona, fincando os vergalhões próximos ao chão. Depois me pediu para assentar todos os vergalhões em volta da lona.  
        — Agora, Jornalista, se "ocê" não quiser que fique muito abafado é só usar uma vara para suspender um pouco mais um dos lados da lona — foi a ultima recomendação de Marcindo antes de ele começar a armar a sua rede e a sua tolda.
        — O senhor quer ajuda? 
        — Não, pode ir ver se você acha uma vara!
        Voltei até o conjunto de construções da fazenda e encontrei o capataz. Perguntei a ele se ele sabia onde eu poderia encontrar varas para por nas toldas.
         — Pode usar aqueles espetos ali! — o homem me apontou um monte de espetos de madeira, usados para assar carne em fogo de chão, que estavam encostados em uma árvore. — Só não vá quebrar meus espetos! E depois que vocês forem embora, deixem eles lá que eu vou buscar.  
        Agradeci e peguei meia dúzia de espetos; para mim e para os outros peões.
        Depois que a rede e a tolda estavam prontas, tomei um banho na lagoa que, diga-se de passagem, estava tomada por camalotes. Eu, João e José precisamos retirar uma pilha de plantas para abrir um "buraco", colocando-as para fora da água. Só assim conseguirmos entrar na lagoa. 
          A noite ainda estava caindo quando Kelé anunciou o jantar. Sobre a cozinha, ele e Junior haviam armado uma grande lona laranja. Nosso acampamento estava verdadeiramente seguro contra a chuva que se anunciava em trovões, relâmpagos e no céu, bastante escuro para o horário; entretanto a água não caia. 
        Jantei e conversei um pouco com alguns peões. Em seguida me recolhi em minha rede. Anotações e sono pesado. (Continua)    

Acampamento na Fazenda Santa Aparecida.
  

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