Capítulo 04, Parte 05

                                                      ***    

      A cozinha estava armada sob árvores, nos fundos do conjunto de construções da grande fazenda. Kelé, auxiliado por Junior, ainda preparavam tudo antes de começar a cozinhar. 
        Após desarrear a mula, perguntei a Kelé se ele gostaria que eu fosse buscar água. Ele consentiu. Então fomos, João e eu, até as construções mais próximas, carregando as latas d'água, para ver se a gente encontrava uma torneira.
       Haviam incontáveis construções, entre casas, mangueiros, galpões, garagens, etc; espalhadas por uma área tão extensa que não era possível definir exatamente o que eram as construções que estavam mais distantes. No meio de tudo estava a sede principal, um casarão branco com as janelas e uma faixa na parte inferior das paredes pintadas de azul. Nos fundos do grande casarão, um pouco mais próximo de onde estávamos, havia um barracão de madeira amarelo onde, segundo João, funcionava uma escolinha para as crianças do pantanal da Nhecolândia e do Paiaguás — ao norte, do outro lado do rio Taquari. 
       Finalmente encontramos uma torneira dentro do cercado da horta da escolinha. José se lembrou, enquanto enchíamos os recipientes, que Marcindo recomendara para ele tentar comprar mandioca, já que haviam alguns pés bem ao lado da escola. Demos a volta até a lateral do barracão, onde havia uma porta e uma janela. Lá dentro, numa pia em frente à janela, uma moça cantarolante lavava a louça. João bateu palma e em seguida se dirigiu à mulher:
      — "Dia", dona!
      — Bom dia! — a mulher respondeu, um tanto assustada com a nossa chegada repentina.
       — A gente queria ver se tem como a senhora vender uns pés de mandioca para "nóis"? — muito educado, João até tirou o chapéu para falar com a mulher. 
       — Esperem um pouquinho! — disse a moça antes de sumir para dentro do prédio.
        Não demorou muito para que um homem saísse e viesse nos cumprimentar.
        — Olá! Vocês são boiadeiros? — o homem, muito simpático, aparentava ter pouco mais de trinta, e falava com um sotaque nordestino.
         — Somos. Nós estamos almoçando ali — apontou a cozinha de Kelé, que estava a uns 500 metros. (Continua)

Placa da escolinha da fazenda Rancharia.
        

Nenhum comentário:

Postar um comentário