Capítulo 04, Parte 04

     O caminhão, carregado com vários tambores de 200 litros de melaço, — alimento para os bois — ia levantando poeira na MS-228.  A vegetação ao redor estava ressequida, quase sem folhagens e acinzentada, resultado dos castigos da seca. Nas margens da estrada havia muita poeira depositada nas plantas, deixando-as com a mesma tonalidade do chão. Depois que deixamos a Serra de Maracajú para trás, a terra mista, um tanto rosada, deu lugar à típica areia banca pantaneira. Por conta da poeira, quando passávamos por outros veículos, a visão ficava extremamente comprometida.
      Carlinhos conduzia com habilidade o Ford F-12000, na estrada que conhecia como a palma da mão. Era muito bom motorista. Eu mesmo já o vira transportando desde bois erados até tratores. Também trabalhava como tratorista, peão de campo, cerqueiro, mecânico etc. Fora criado pelos próprios patrões e mantinha uma relação de trabalho diferenciada. Quando novo, deram-lhe a opção de estudar na cidade, mas ele não se adaptou. Preferiu continuar no pantanal. Assim foi aprendendo a fazer de tudo. Carlinhos é meu primo de 2° grau, mas não é pelo parentesco que eu o classifico como boa gente. 
      Quando chegamos, meus avós esperavam de pé na varanda da casa de madeira. Tomei as  bençãos dos dois antes de abraça-los. Passava da hora do almoço, mas a sede era maior que a fome. Então, antes de almoçar, tomamos um tereré. Depois armei uma rede no varandão para uma sesta.
       À tarde meu avô disse que estivera com um dos responsáveis pelo leilão e que ele havia dito que uma comitiva partiria em dois ou três dias. Já estava quase tudo acertado para que eu pudesse viajar com ela. Ótimas notícias. Em seguida ajudei o Carlinhos descarregar os tambores de melaço para que ele pudesse seguir com o caminhão para a Santa Cruz. Enquanto o camião sumia no horizonte, levantando nuvem de poeira, meu avô me chamou para me mostrar o monte de tralhas que ele já havia separado para a minha viagem. Capa de chuva, cochonilha, pelego, arreio e mais uma infinidade de coisas que le iria me emprestar. Parecia que não estava faltando nada. 
      Depois que a noite já havia caído no Pantanal, após jantarmos, era hora da música. Meu avô fazia o solo e eu o acompanhava na base. Usávamos dois antigos vilões. No repertório, só música raiz. Até minha avô se juntou a nós para cantar o "Reino Encantado". (Continua)

MS 228
    

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