Capítulo 04, Parte 02

       Em pouco tempo estávamos todos reunidos em volta do fogão, apreensivos com a chuva que vinha (ou não vinha). Ainda era muito cedo, por volta de quatro e meia, e não havia nada mais que pudéssemos fazer, a não ser esperar até que os primeiros raios de sol dessem alguma visibilidade para começarmos a trabalhar.
        — Kelé, nós vamos ter que ir pela estrada boiadeira, porque é perigoso esses bois se entreverarem (misturarem) com o gado da Rancharia — explicava o condutor. — Você e o seu copeiro (Junior) podem ir por dentro mesmo, é mais perto.
           — Tá certo — o cozinheiro parecia não ter queixas do itinerário.
         A diferença das estradas boiadeiras para as demais é que elas possuem um corredor de cercas para a passagem dos viajantes. Isso evita que os animais das fazendas se misturem com os das comitivas. Quando precisam passar por dentro de campos de fazendas, onde há animais soltos, os peões de comitiva precisam de atenção redobrada para impedir um entreveiro. Um animal estranho na boiada pode representar um dia inteiro de trabalho pra apartá-lo, além de um capataz, ou dono de fazenda, furioso.      
        A tempestade continuou seu curso a boa distância. Sobre nossas cabeças, nem sequer uma gota d'água. Graças a Deus! 
        Quando o sol deu os primeiros sinais o condutor avisou que já poderíamos buscar os animais. Eles haviam passado a noite presos, dentro de uma das mangas do mangueiro do retiro, para sorte do tropeiro do dia que foi polpado de uma longa caminhada. Como o espaço do cercado era limitado, bastaram alguns segundos para os animais ficaram em forma, com suas ancas quase encostando na  cerca de tábuas. Agora já reconhecia a minha mula e, não demorou muito, já estávamos prontos para prosseguir viagem.
         Retiramos os bois, que pousaram em outra manga, e tocamos por um corredor que começava nos fundos do mangueirão. Kele e Júnior ainda ficaram terminando de guardar as tralhas da cozinha antes de partirem também, mas por outro caminho, mais curto que o nosso. Se tudo desse certo, até a hora do almoço estaríamos em uma das fazendas mais importantes da região, a fazenda Rancharia. (Continua)

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