Capítulo 03, Parte 07

     — Então você trabalha "de" jornalista? — Divino puxou assunto.
     — Não, seu Divino. Eu só to estudando para ser um.
     — Jornalista deve ganhar bem "pra danar". — Divino também se mostrava interessado na minha profissão.
     — Que nada! Jornalista ganha mais ou menos. Da pra viver, se o cara não tiver muito luxo. Só meia dúzia de jornalistas, esse que trabalham TV, que são milionários, mas o resto... 
      Enquanto conversávamos acabamos ficando um pouco para trás e, como Marcindo e José já não podiam mais ouvir a conversa, Divino se sentiu a vontade para desabafar. 
      — Eu não era tão "mal acabado" assim antigamente. Eu tinha uma comitiva maior que essa aqui. Uma "burrada" boa, barbaridade. Só tralha de primeira. Tinha quatro cargueiros, tralha completa de cozinha e uns "peão" cabeceira. Também tinha casa boa pra  morar, em Campo Grande. Ai a mulher resolveu separar e ficou com quase tudo. Tive que vender as tralhas e dar metade pra ela. Bom, pelo menos minhas filhas estão bem cuidadas. Depois "invernei" na cachaça e acabei aqui, já velho e trabalhando pros outros. Agora só morrendo pra eu conseguir me aposentar. 
     Acredito que, por não ser comum conviver com "gente estudada", Divino fazia seus lamentos demostrando muito respeito por mim, como se eu fosse algum tipo de autoridade. Como se eu tivesse mais experiência com a vida do que ele. Já eu, pensava exatamente o contrário.
     — Senhor me desculpa a pergunta, seu Divino, mas e essa cicatriz?
     — Então, isso aqui foi depois que eu separei. Saiu um "trupé" lá na zona e uma "muié" avançou "ni" mim, de traição, com uma garrafa quebrada. A desgramada me deixou sem o olho direito.
      Enquanto a tarde caía, Marcindo ordenou que Divino e eu nos mantivéssemos na culatra enquanto ele e José se adiantavam para negociar o pouso. Em seguida sumiram mais uma vez, Marcindo puxando o quarto de milha pelo buçal. (continua) 

Marcindo e José se adiantam para tratar do pouso.



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