Chegamos, em fim, ao retiro São Luiz, parte da fazenda Rancharia. Os retiros são novas estruturas feitas, em fazendas de grandes extensões, para tornar mais fácil o manejo. Depois de um certo tempo esses retiros ficam tão estruturados que acabam se tornando novas fazendas. A fazenda Corixão, por exemplo, era retiro da fazenda Campo Sira, distante do aterro cerca de 16 quilômetros, seguindo para o noroeste.
O São Luiz parecia ser um desses que já estavam virando fazenda. Tinha casa de alvenaria, não muito grande, mas parecia se bem aconchegante, e um pequeno galpão, para quando os peões da Rancharia viessem trabalhar o gado. Havia também, na direção de onde viemos, um mangueirão rústico, onde deixamos os animais. As construções ficavam em uma "mesa", um elevado, rodeado de vazantes e brejos.
Kelé armou a cozinha sob uma das poucas árvores do lugar. Os outros peões também se ajeitaram ali por perto, se aproveitando dos galhos da mesma árvore, que acabou ficando sem lugar para a minha rede. Para não ter que cavar um buraco e fincar um poste, o que ia demorar um tempão, e já estava começando a escurecer, resolvi armar a minha rede em outro conjunto de árvores mais afastado. Lá havia uma árvore maior, que parecia ser um pé de jatobá, rodeado por dois pés de bocaiuva.
Armei a rede entre os dois pés de bocaiuva e estendi o meu maneador entre um dos pés de bocaiuva e o Jatobá, formando um "L". Notei porém que haviam dois problemas em se armar a rede ali. O primeiro era que, como a copa do jatobá era muito alta e pouco frondosa, haviam grandes chances de eu receber uma boa dose do sereno da madrugada. O segundo eu só percebi quando fui amarrar o maneador em volta do jatobá. Ele possuía um grande buraco em seu tronco cuja saída ficava um pouco acima de onde o maneador encontrava com a árvore. O pior é que de dentro desse buraco saíam grunhidos estranhos, como se houvesse um bando enorme de filhotes de passarinho. Só pode ser morcego. De todo jeito, eu é que não ia me dar ao trabalho de achar outro lugar para armar as minhas coisas. Com ou sem morcego, era ali que eu ia dormir.
Voltei para a cozinha, morrendo de sede, pois há tempos que estava sem água no cantil.
— Posso beber um pouco da sua água, Kelé?
— Pode pegar, mas essa água eu peguei dali — apontou para a vazante, — e eu sei que lá perto do galpão tem um cocho com uma água especial.
O cocho é como uma banheira estreita cavucada em um tronco. É muito usado em fazendas para se servir sal para o rebanhos. Neste caso, usa-se troncos estreitos e compridos, de mais de dois metros. Já o cocho d'água do retiro São Luiz devia ter pouco mais de um metro de comprimento por uns 50 centímetros de largura, e as paredes de dentro eram revestidas com concreto, o que deixava a água bem fresca. Encima havia uma tampa de madeira grossa. Ficava sob a sombra de outra grande árvore, bem ao lado do galpão. Kelé tinha razão, a água do cocho era especial. Depois de tomar tanta água de lagoa eu já havia aprendido a dar imenso valor àquela água de cocho. (continua)

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