Era evidente que não ia dar certo. Eu não tinha a menor experiência como árbitro. Nem preparo físico eu tinha. Àquela altura a temperatura já estava quente a ponto de se tornar desagradável. Ainda mais se fosse pra ficar correndo, pra lá e pra cá, no sol. Outro fato relevante é que: árbitro também deve fazer alongamento antes de começar a correr. Eu tinha me esquecido completamente deste detalhe. Com cinco minutos de jogo as dores nas pernas começaram. Inicio de câimbra que quase me impedia de correr. Mas eu não estava disposto a desistir.
A maioria dos jogadores, e eu, estávamos descalço. Só uns dois ou três usavam tênis e havia até quem jogasse de botina. Depois de alguns minutos decidi parar o jogo e pedir para que os atletas retirassem as botinas porque a coisa tava ficando violenta demais.
Todo juiz de futebol deve presar para que os jogadores o respeitem. Ao menos era isso que eu notava nos jogos que acompanhava pela TV. O que eu nunca tinha visto era um time jogar com um arsenal no banco reservas. Todos aqueles revolveres, com certeza, não estavam contribuindo para a minha boa atuação. Vai que algum jogador, mais esquentado, perde a cabeça com o árbitro.
O fracasso total foi quando apitei uma falta dura na entrada da área cometida por um jogador do Baía. Quando me preparava para tirar o pacote de "Cavalinho" do bolso e aplicar o meu primeiro cartão amarelo, outro jogador, um bigodudo com cara de "bravo pra danar" veio em defesa do que ia ser punido.
— Foi uma falta pesada — eu argumentei.
— "Cê" ta louco? Não foi falta nenhuma, não! — o homem gritava furioso, quase me empurrando para trás.
— Você tem razão, não foi mesmo. Levanta daí e para de fazer cena! — estendi a mão para levantar o jogador caído.
***
Terminando de almoçar eu disse a Marcindo que, na hora que ele quisesse, eu ia tocar a tropa.
— Espera mais um pouco ai, Jornalista! — ordenou.
Ainda bem que eles não sabiam do meu outro apelido.
Mais alguns minutos e o condutor deu a ordem. A meia horinha de descanso, sentado desconfortavelmente no chão com as costas encostadas numa árvore, nem fez cócegas na moleza que batia depois do almoço. Minha vontade era armar a minha rede e tirar um cochilo ali mesmo, mas a viagem tinha que continuar. (Continua)

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