Enquanto os visitantes não chegavam, agente ia ajeitando o campo de futebol que, por falta de uso, lembrava um terreno baldio. Samuca pilotava o trator com a roçadeira hidráulica que, em menos de 15 minutos, aparou o pasto a uma altura que realmente lembrava a grama de um campo de futebol. Leonardo (Piolho) e Toninho (Capado) pregavam as vigas de madeira que serviam como traves. No fim ficou mesmo parecendo um campo de futebol como outro qualquer, exceto por montes de esterco aqui e ali.
Cerca de duas horas depois, um ronco de motor anunciava a chegada do time adversário. O trator, outro Ford 6600, semelhante ao que Samuca usara para aparar a grama e também ao do Corixão, adentrou a sequência de portões da entrada puxando uma carreta cheia de gente.
— Veio a turma toda. Vai dar jogo — comentava Toniho sem esconder a alegria enquanto arrastava os dedos sobre o bigode, como se quisesse coloca-lo no lugar.
Ali por perto eu ensaiava embaixadinhas com uma bola bastante corroída pelo uso. Muito habilidoso que sou, conseguia uma média de duas embaixadinhas em cada tentativa.
O trator estacionou à sombra de uma árvore na beira do campo e, como se fosse um ritual, um a um, os passageiros começaram a pendurar nos galhos da árvore as suas cintas de bala acompanhadas de guaiacas e revolveres. No fim ficou até bonito de se ver. Dava a impressão que se tratava de um "pé de revólver".
Os peões da Santa Cruz pararam o que estavam fazendo e foram receber os recém-chegados. Eu achei melhor dar um tempo até todos se cumprimentarem, e só depois me juntei ao grupo, dando início a uma série de apertos de mão sem aperto.
Em seguida, as mulheres seguiram para a cozinha enquanto, ali no campo, as articulações para o grande jogo começavam.
O jovem, que viera guiando o trator, demonstrava muita disposição e servia como uma espécie de técnico do time adversário. Escolhia os jogadores e articulava táticas e estratégias de jogo. Vendo todo aquele furdunço, eu passei a dar mais credibilidade ao jogo, que até bem pouco tempo era só um joguinho qualquer.
Percebendo que se aproximava o início da partida, e ciente de que habilidade técnica não era o meu forte, Toninho foi logo me entregando um apito e dois pacotes de fumo vazios, que serviriam como cartões. Um de Juruti para o cartão vermelho e um de Cavalinho para o cartão amarelo.
— "Mão no 'Borso'" (era assim que eles me chamavam), você apita!(Continua)

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