Capítulo 03, Parte 03

     Tocamos por uma estrada bem estreita, atravessando tufos de floresta que, ora era extremamente fechado, a ponto de os 12 touros terem de se espremer para caber, hora se abria em clareiras que aparentavam ser início de novos caminhos. Os animais levantavam tanta poeira que, às vezes, não era possível enxergar quase nada. As árvores eram, em sua maioria, finas e retorcidas, mas também haviam jatobás, sucupiras, ipês e pés de pequi gigantescos. Há certa altura, um bando de quatis atravessou o caminho, subiu em uma árvore e ficou admirando nossa passagem. A floresta devia ter uma área muito grande, pois já estávamos chegando ao meio dia quando finalmente a paisagem se abriu, revelando uma vazante imensa, que sumia da vista. 
      Para mim aquela visão era estra de volta ao paraíso. Há tempos que estava sem água, e já estava com muita sede. Claro que sempre havia a possibilidade de pegar um pouco de água com algum companheiro, mas eu não queria incomodar. 
      Kele e Junior já estavam preparando o almoço há alguns metros da vazante, sobre a sombra de uma árvore frondosa. Quando chegamos, enquanto os peões soltavam os touros e a tropa, o condutor me fez uma recomendação.
      — Jornalista, você deixa a sua mulinha arriada que depois do almoço vai precisar dela para tocar os animais.   
      A recomendação fazia todo sentido. Como não havia nenhuma cerca ao redor, os animais soltos tinham liberdade para seguir em qualquer direção. Embora estivessem sempre pastando, sem nenhuma intenção de fugir, poderiam se deslocar por quilômetros a procura de pastos mais verdes. 
      Apenas afrouxei as chinchas da velha mulinha e fui almoçar.
     — Você conhece a fazenda Santa Cruz? — perguntei a José enquanto almoçávamos, sentados sobre uma das raízes da árvore. 
     — Conheço. A gente vai passar lá perto. Por que, você já foi lá também?
     — Já. Algumas vezes. Ela também é do patrão do meu avô. Um vez eu até fui árbitro de um jogo histórico do povo da Santa Cruz contra o povo da Baía das Pedras.

                                                                    ***

      — Bem cedinho, durante o quebra-torto (café da manhã reforçado), a cozinheira maria chamou a fazenda Baía da Pedras no rádio amador.
      — Como é que tão por aí? Câmbio! 
     O rádio chiou um pouco até uma voz feminina responder. 
      — Aqui tá tudo bem, e aí? Câmbio!
      — Aqui também, graças a Deus. Eu to chamando pra convidar "ocês tudo" pra passar domingo aqui com "nóis". Câmbio!
      — Maria, espera só um pouco que eu vou ver aqui com o povo. câmbio!
     Depois de alguns minutos veio a confirmação. Eles viriam. (Continua)

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