Era costume. Kelé e Marcindo acordavam extremamente cedo e tomavam chimarrão, enquanto conversavam na beira do fogo da "trempa". Quando me aproximei da cozinha estava tão cedo que os dois até estranharam.
— Caiu da rede, Jornalista? — Marcindo me olhou espantado.
— Estou preocupado com a tropa.
— Ih... tem muito tempo ainda. Espera pelo menos começar a amanhecer. Você toma chimarrão?
Aceitei a proposta do chimarrão e, como não havia onde se sentar, acocorei próximo aos dois. Não demorou nem um minuto e uma dor na panturrilha me fez levantar, mas continuei tomando chimarrão em pé mesmo. Me perguntei como Kelé e Marcindo conseguiam ficar tanto tempo de cócoras.
Os dois conversavam sobre a rota da viagem. Ambos conheciam muito bem a região e calculavam o melhor itinerário. Pela conversa, hoje o nosso destino seria a fazenda São Luiz.
Os primeiros raios de sol começaram a apontar no horizonte e eu perguntei novamente ao condutor se já era hora de tocar a tropa.
— Vai indo, devagarinho!
Os animais estavam em um corredor que se estendia a partir de um colchete, um pouco adiante, até alguns quilômetros. Imaginei que não teria muito trabalho, já que os animais não tinham para onde fugir. Estava enganado. Após caminhar alguns metros, com dificuldade, na areia extremamente macia e salpicada com tufos de capim nativo, aqui e ali, ouvi os gritos de alguém que corria em minha direção. Era Guilherme, que se aproximava com pressa.
— Aqueles dois, "sem vergonha", cruzaram a cerca — explicou enquanto apontava os burros da tropa que estavam do outro lado da cerca, numa invernada que devia ter o tamanho de uma cidade. — Tem um colchete, só que é lá na ponta. Vamos ter que ir até lá.
Imediatamente passamos para o outro lado da cerca e começamos a tocar os dois fujões em direção ao tal colchete que devia ficar a mais de quilômetro.
A manobra com os animais rendera atrasos. Sabia que não era minha culpa eles terem cruzado a cerca, mas lamentava que o fato tivesse ocorrido justo na minha (o novato) vez de tocar a tropa. Quando chegamos ao acampamento, todos o peões esperavam na beira da cerca, no local onde seria feita a forma. João já estava com o meu buçal e o meu freio na mão, para que eu não tivesse que ir buscar. embora o condutor não tivesse dito nada sobre o atraso, dava pra perceber que, naquele momento, ele estava com pressa. Pra completar, hora de correria naquela areia quase me lavara a exaustão. (Continua)

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