31 de julho de 2008
O Desabafo de Divino
O frio da madrugada foi um pouco mais ameno. Nem precisei do cochinilho. Eu podia dizer que tinha dormido bem e que acordara disposto. Àquela altura já dava pra ver o cozinheiro acendendo o fogo da "trempa". O primeiro pensamento do dia era a preocupação com as obrigações de tropeiro, mas antes ainda precisava desarmar a rede e o mosquiteiro.
O mosquiteiro, todo branco, era confeccionado, em sua maior parte, de filó. Entretanto, quando se aproximava dos punhos (as pontas da rede), o filó era substituído por um tecido branco comum, costurado em forma de de funil para que os punhos pudessem passar por dentro. Nas pontas desse funil haviam pequenas amarras que apertavam o tecido branco, evitando a entrada de insetos pelos punhos. Havia também um barbante que ficava esticado de um punho ao outro, mantendo o mosquiteiro a uma boa altura de quem estava deitado. As duas laterais eram grandes suficientes para arrastarem no chão. Em teoria não devia haver como um mosquito conseguir entrar, mas,
às vezes, eu era surpreendido com um ou outro zumbindo nos meus ouvidos.
A tolda, a rede, o mosquiteiro, o cobertor e algumas peças de roupa eram guardadas no dobro, um tipo de mala, de couro ou de lona, com formato cilíndrico. A peça deve ter, mais ou menos um metro de comprimento por 20 centímetros de altura e 30 de largura. Seu formato possibilita que várias sejam empilhadas sobre a "plataforma" resultante da junção do arreio e das duas bruacas nos burros de carga. A abertura superior é fechada com duas abas dobradas, uma sobre a outra, e, ao invés de zíperes ou botões, os dobros são fechados usando-se cintas, à contagem de duas ou três, que fazem volta completa ao redor da mala e são apresilhadas em um dos lados, como as cintas que usamos na cintura.
A primeira tarefa, depois de escovar os dentes e "usar o banheiro", era dobrar o cobertor e coloca-lo no dobro. Depois, com muito cuidado para não deixar arrastar, dobrava a rede e o mosquiteiro, tudo junto, e também guardava na mala. (continua)

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