Capítulo 02, Parte 08

     Bastante sorridente, Cafú continuou a prosa por um tempo. Depois foi embora com o trator. Antes de partir ainda disse que poderíamos deixar o tambor por ali mesmo que, depois, ele viria buscar. 
     Aproveitei para tomar banho enquanto o dia ainda estava claro. As águas do açude eram bem mais limpas que o da tarde anterior. Também não haviam tantos jacarés. Pode se dizer que este pouso seria mais confortável. 
     Voltando para o acampamento, me deparei com Guilherme de um lado pro outro, com celular na mão, discando e falando alô. Ele havia comprado o aparelho na sua última ida à cidade, mas não tinha ideia de como se manuseava. Após ter ouvido do capataz que por ali haviam alguns lugares onde havia sinal de celular ele resolveu que queria fazer um telefonema. Resolvi interferir. Expliquei que dava pra ver na tela do aparelho se ele tinha ou não tinha sinal, e que não era preciso ele ficar fazendo chamadas. Depois o ensinei a examinar as barras sinal. 
     — Essa tecnologia não é tão complicada. Ela é autoexplicativa. É só você ir lendo que vai descobrindo, pouco a pouco, as funções — expliquei.
     — E eu "lá" sei ler? — respondeu antes de continuar de um lado pro outro com o aparelho na mão, mas já não falava alô, apenas cuidava a tela. 
      Guilherme tinha 28 anos e era preto do cabelo bem enrolado. Embora lhe faltassem alguns dentes da frente, não tentava esconder quando sorria. Cultivava um bigode estreito e era mais conhecido como Ferreirinha, fazendo alusão ao personagem de uma música caipira bem conhecia. Também boiadeava nessas bandas desde muito novo.
      O sol ainda estava se pondo quando o cozinheiro anunciou o jantar. Arroz carreteiro, feijão com carne de sol e salada de tomate. Ele disse que tinha esquecido de fazer a salada no dia anterior, e  também que aqueles eram os únicos tomates que o dono da comitiva trouxera. Dali em diante não haveria mais salada. Eles evitam trazer vegetais porque estragam muito rápido com o calor e com o movimento constante do transporte. Na verdade os ingredientes para se cozinhar em uma comitiva são bastante limitados, resumem-se a arroz, feijão, carne de sol, extrato de tomate, macarrão e os temperos. O resto fica por conta da criatividade do cozinheiro. 
     Mesmo terminando cedo o jantar, resolvi ir logo para a rede fazer as anotações do dia. Na manhã seguinte teria que acordar bem cedo para tocar a tropa. Embora aquela fosse uma responsabilidade a mais, estava feliz em poder cumpri-la. Eram estes detalhes que me faziam sentir como um peão de verdade. (Continua)           

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