Capítulo 02, Parte 07

     A fazenda Conceição ficava bem na beira de uma vazante. Por ser mês de julho, quase não havia água, restando apenas algumas lagoas, duas que se formaram naturalmente no leito da vazante e uma terceira que era, na verdade, um açude, cavado pelo fazendeiro. O acampamento estava sendo montado em um pequeno capão a uma boa distância da sede. O lugar era limpo, não tinha mato, apenas algumas folhas secas no chão e a grama rasteira, falhada, aqui e ali. 
     Um grande trator se aproximava. No suporte hidráulico onde a lâmina é acoplada havia um tambor de 200 litros cheio de água. Muito solícito, o capataz da fazenda encheu o tambor com água "boa", de uma das torneiras da fazenda, e agora estava trazendo para o nosso consumo. Não seria preciso buscar água para o cozinheiro.

Fazenda Conceição
      Encontrei um bom lugar para armar a rede, só que ficava um pouco afastado da "cozinha". Concluí que não havia problemas, já que João estava armando a sua rede ainda mais afastado. Dessa vez tomei cuidado para deixá-da o mais reto possível. Não havia sido muito confortável dormir na posição exageradamente côncava da noite passada. Depois de a rede armada e das minhas tralhas devidamente penduradas, segui para a "cozinha", onde o capataz ainda conversava sorridente com Kelé, Marcindo e José. 
      — Esse ai é neto do seu Belo, lá do Corixão. Ele é jornalista. Ta boiadeando pra escrever a história. — José se incumbiu de nos apresentar.
      A fazenda Corixão era um ponto de referência para os que viviam na região. Muitos fazendeiros ordenavam que seus peões levassem o gado que era vendido até o Corixão para que fossem embarcados em camiões, já que lá era a última fazenda com embarcador onde os caminhões conseguiam chegar com segurança. E mesmo quando não eram embarcados, as comitivas que passavam para levar o gado para o leste, costumavam a fazer o pouso na fazenda. Haviam, inclusive, dois mangueiros boiadeiro no Corixão. Ou seja, duas comitivas diferentes poderiam pousar na mesma noite na fazenda. As ordens do patrão era pra que fosse cobrado 20 ou 30 reais para o pouso, dependendo do tamanho da baiada, e 15 a 25 reais por caminhão embarcado, dependendo o tamanho do veículo. Quem atendia todos os que chegavam era meu avô. Sempre muito solicito, fazia o que podia para deixar a vida dos peões um pouquinho mais confortável. Por isso, seu Belarmino, o Belo, era conhecido de quase todos os peões da região.
     — Eu sou o Cafú, capataz aqui do Chupim. Sou amido do seu avô. — Se apresentou o homem enquanto estendia a mão para me cumprimentar.
     Chupim era na verdade o apelido do seu Ernesto, o proprietário da fazenda conceição. Eu o conhecia porque ele era casado com uma das filhas do seu Joci e sempre ia no Corixão. Para os pantaneiros, o uso de apelidos era outro costume muito comum. O Cafú, por exemplo, era óbvio que não se chamava Cafú. O apelido era resultado da sua semelhança com o jogador, capitão da Seleção. Alguém que, por ventura, quisesse o encontrar e que saísse perguntando por ele na região, teria muito muito mais chances de sucesso se usasse o apelido, ao invés do nome e do sobrenome. Também, outra particularidade era o aperto de mãos. Na verdade não há aperto. As mãos se encontram, balançam juntas, mas sem se apertarem. Se na cidade um aperto de mãos firme passa confiança, aqui, se você apertar muito forte a mão de um pantaneiro estará sendo desrespeitoso. (continua)                        

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