João e eu voltamos para o acampamento carregando as latas d'água. Eu Ainda pensava na história do cangaço. Estava realmente impressionado. Marcindo estava ali por perto, sentado no chão encostado em uma árvore. Achei que ele pudesse me dar mais informações, já que tinha mais idade.
— Seu Marcindo, o senhor sabe alguma coisa sobre os cangaceiros que aprontavam por aqui antigamente?
Para minha surpresa, antes mesmo que o Condutor pudesse se manifestar, Kelé, embora estivesse ocupado fazendo o almoço, começou a contar exatamente a mesma história que José havia contado. Então não é só o José tentando me assustar.
Terminamos de almoçar, arreamos os animais da tarde e deixamos Kelé e Junior para trás. Em breve eles nos alcançariam novamente.
— Como se chama aquele lugar onde almoçamos? — perguntei a José enquanto cavalgávamos na culatra dos bois, exatamente como de manhã.
— Não sei se tem nome. Só sei que as terras são do Puccinelli, né, Marcindo?
— "É"! Aquelas terras são do Puccinelli — o condutor respondeu seco, se referindo a André Puccinelli, o Governador do Estado.
Mas adiante, depois de dizer a José que iria cuidar do pouso, Marcindo aumentou o passo, deixando todos para trás. Mesmo com a idade avançada, e, embora estivesse rebocando o cuiudo (garanhão) quarto de milha, ele não demonstrava dificuldade quando era preciso andar mais rápido.
Quando precisávamos passar por algum portão ou colchete, um dos que estavam lá na frente se adiantava para abrir, deixando que um dos que estavam para trás fechasse. Assim a comitiva nem precisava parar, e mantinha o ritmo. Eu e José revesávamos na culatra para fechar esses portões e os colchetes. Numa dessas ocasiões, quando apeei para fechar um colchete, acabei derrubando a minha faca com a bainha e tudo. Eu a carregava nas costas, enfiada entre a cinta e a faixa da cintura, do jeito que que aprendi com o meu avô. A faca era uma pouco menor que a dos outros peões, e acho que a minha cinta não estava suficientemente apertada. Fechei o colchete e prossegui viagem, sem me dar conta do importante objeto que ficava caído na areia do passadouro do colchete. (Continua)

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