Capítulo 02, Parte 05


     Marcindo e José estavam em silêncio, e, a mim, só restava admirar a paisagem. Estava confirmando a parte da pesquisa bibliográfica que alertava para o quanto o Pantanal é um bioma sensível. O solo, arenoso e pobre, demonstrava-se incompetente para manter a vegetação. O capim-nativo, uma espécie de grama rasteira que não passa de dez centímetros de altura e o único que consegue sobreviver em grande parte do bioma, era falhado em inúmeros pontos. Há quem diga que se o capim-nativo morre em um determinado lugar, nunca mais ele nasce ali de novo. As árvores também demonstravam padecer com o clima e o solo pobre do lugar. Era raro encontrar algum capão (floresta fechada) com árvores grandes. O que se via com facilidade era uma vegetação de porte médio e toda retorcida. 
     Embora tivessem saído depois, Kelé e Junior, em algum ponto desta marcha matinal, nos ultrapassaram, tocando os burros cargueiros. Isso era algo comum, já que a velocidade de um burro, mesmo estando carregado, é maior do que a das rezes. Se houvesse muita pressão os bois poderiam começar a fugir e teríamos um temido estouro. Também, quando se trata de animais magros ou velhos, deve-se zelar pela saúde deles, e para que não percam muito peso.
     Quando chegamos ao local do almoço, Kelé e Junior estavam terminando de descarregar as tralhas da cozinha. O lugar era à beira das bitolas fundas feitas pelos pneus dos poucos veículos que cruzavam pelo local.
     — Ta vendo aquele capão bem fechado, Jornalista? — quem perguntava era José, enquanto se aproximava apontando uma floresta bem densa a um ou dois quilômetros. 
     Consenti com a cabeça.
     — "Diz que" há muitos anos uma turma de cangaceiros foi cercada dentro de uma tapera que tinha la no meio. Morreu um monte de gente e o lugar é mal-assombrado. — Vendo meu interesse, José continuou. — "Diz que" uma vez, uma comitiva resolveu pousar na velha tapera e um dos peões ficou tirando sarro da história e zombando dos fantasmas. "Diz que" esse caboclo passou a levar uma surra todo dia, desde "aqui" até depois do Corixão, de uma coisa que só ele conseguia ver.  
      Fui incumbido, mais uma vez, de buscar água para o cozinheiro na lagoa que ficava a cerca de 50 metros dali. Dessa vez, João se ofereceu para ajudar. Na lagoa encontramos Divino e Guilherme que estavam aproveitando a água para tomar tereré. Minha intenção era de só pegar a água e voltar, mas João disse que Kelé ainda iria demorar para terminar de ajeitar a cozinha, e que não precisaria da água tão cedo. Enquanto os outros conversavam eu estava pensando na história que José contara. Já tinha ouvido o seu Joci, o patrão do meu avô, falar uma vez do cangaço no Pantanal. Segundo ele, do mesmo jeito que era feito no Nordeste era feito aqui. As "gangues" chegavam nas fazendas, faziam e levavam o que queriam. Se eram bem recebidos, não havia violência, mas, se os fazendeiros reagissem, "ai a coisa ficava feia". Muita gente foi morta por esses bandos. Seu Joci também contou que o cangaceiro mais temido era um tal de Baianinho. Ele seria um tipo de "chefão", um "Lampião" pantaneiro. (Continua)                      

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