Capítulo 02, Parte 04

       Onde antes era a cozinha só restou o lastro improvisado com pedaços de madeira dispostos lado a lado no chão. Kelé preparava o último burro, auxiliado por Junior. Depois que o arreio estava bem amarrado os dois penduraram as bruacas, uma de cada lado, ao mesmo tempo, para que o peso ficasse equilibrado. Antes eu ainda tentei erguer sozinho uma das bruacas, mas não aguentei. Cada uma devia pesar mais de 50 quilos. Pobres burros. Que sina desgraçada.
      Enquanto eu assistia Kelé e Junior fazerem os últimos retoques, os demais cavalgavam há boa distância tocando os doze bois. Marcindo ainda puxava o garanhão. Por algum motivo, José voltara, e agora se aproximava novamente de nós.
        ― Jornalista, o condutor mandou você ir com a gente, tocando o gado.
        Os doze bois seguiam lentamente, levantando um pouco de poeira, remexendo, em passadas, a areia branca e fina que, a aquela altura, já estava completamente seca. Sentia muito calor e sabia que a temperatura aumentaria muito ainda até o meio-dia. O pior é que, pela altura do sol, ainda nem passava das nove.
     O gado seguia em boa velocidade, rodeado por todos os peões, propositalmente distribuídos. Eu seguia logo atrás dos bois, ao lado de Marcindo e José.
        ― Jornalista, aqui onde nós estamos é a culatra. ― Marcindo começou a explicar com a mesma severidade de sempre. ― Cada posição ao redor do gado recebe um nome. O João, por exemplo, que ta lá na frente, é o ponteiro. É ele quem toca o berrante para chamar os animais. Ele também é o freio da boiada. Nunca pode deixar os animais passarem na frente dele. Já o Guilherme e o Divino são os chavieiros. Eles devem ficar um de cada lado, ajudando o João lá na frente. Quem fica aqui atrás, igual nós estamos agora, são os culatreiros. E, se a boiada for grande, ainda existem os meeiros: que cuida das laterais desde o meio até a culatra. ― O condutor continuava seu discurso apontando os personagens com o seu rabo-de-tatu. ― Tirando eu e o cozinheiro, cada peão fica responsável pela tropa durante um dia. E a ordem para isso respeita a posição do peão ao redor do gado. Por exemplo: se hoje cedo foi o João, que está lá na ponta; amanhã será Guilherme, que está logo a sua direita... e assim por diante, seguindo no sentido horário. Então amanhã é o seu dia de tocar a tropa. Quando o sol tiver nascendo você já pode ir atrás dos animais e vai cuidar deles atá na hora do almoço. Tá certo?
   ― Tá certo! ― Estava feliz e ao mesmo tempo preocupado com as novas responsabilidades. Sabia que sobrava força de vontade para cumpri-las. O que faltava era experiência.
      O condutor era negro, bem alto e magro. Tinha os olhos meio puxados e lembrava os primeiros tocadores de blues. Se entrasse em um bar de blues no Alabama certamente alguém lhe pediria para tocar uma canção. Devia ter mais de 70 e mais nenhum fio de cabelo na cabeça, embora fosse muito lúcido e esperto. Eu entendia muito bem o porque tanta seriedade em Marcindo. Não devia ser nada fácil comandar peões e lidar com a responsabilidade de uma carga milionária. (continua)                            

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