Enquanto eu assistia Kelé e
Junior fazerem os últimos retoques, os demais cavalgavam há boa distância
tocando os doze bois. Marcindo ainda puxava o garanhão. Por algum motivo, José voltara, e agora se
aproximava novamente de nós.
― Jornalista, o condutor mandou você ir com a gente, tocando o gado.
Os doze bois seguiam lentamente,
levantando um pouco de poeira, remexendo, em passadas, a areia branca e fina
que, a aquela altura, já estava completamente seca. Sentia muito calor e sabia
que a temperatura aumentaria muito ainda até o meio-dia. O pior é que, pela
altura do sol, ainda nem passava das nove.
O gado seguia em boa velocidade,
rodeado por todos os peões, propositalmente distribuídos. Eu seguia logo atrás
dos bois, ao lado de Marcindo e José.
― Jornalista, aqui onde nós
estamos é a culatra. ― Marcindo começou a explicar com a mesma severidade de
sempre. ― Cada posição ao redor do gado recebe um nome. O João, por exemplo,
que ta lá na frente, é o ponteiro. É
ele quem toca o berrante para chamar os animais. Ele também é o freio da
boiada. Nunca pode deixar os animais passarem na frente dele. Já o Guilherme e
o Divino são os chavieiros. Eles
devem ficar um de cada lado, ajudando o João lá na frente. Quem fica aqui
atrás, igual nós estamos agora, são os culatreiros.
E, se a boiada for grande, ainda existem os meeiros: que cuida das laterais
desde o meio até a culatra. ― O condutor continuava seu discurso apontando os personagens
com o seu rabo-de-tatu. ― Tirando eu e o cozinheiro, cada peão
fica responsável pela tropa durante um dia. E a ordem para isso respeita a
posição do peão ao redor do gado. Por exemplo: se hoje cedo foi o João, que
está lá na ponta; amanhã será Guilherme, que está logo a sua direita... e assim
por diante, seguindo no sentido horário. Então amanhã é o seu dia de tocar a
tropa. Quando o sol tiver nascendo você já pode ir atrás dos animais e vai cuidar deles atá na hora do almoço. Tá certo?
― Tá certo! ― Estava feliz e ao
mesmo tempo preocupado com as novas responsabilidades. Sabia que sobrava força
de vontade para cumpri-las. O que faltava era experiência.
O condutor era negro, bem alto e magro. Tinha os olhos meio puxados e lembrava os primeiros tocadores de blues. Se entrasse em um bar de blues no Alabama certamente alguém lhe pediria para tocar uma canção. Devia ter mais de 70 e mais nenhum fio de cabelo na cabeça, embora fosse muito lúcido e esperto. Eu entendia muito bem o porque tanta seriedade em Marcindo. Não devia ser nada fácil comandar peões e lidar com a responsabilidade de uma carga milionária. (continua)

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