― É só uma anta, Jornalista. ― Gritou, agora
um pouco mais perto. ― Vamos voltar.
Não
acredito que corri um campo inteiro atrás de uma anta. Quem fez papel
de anta fui eu. É uma maneira ótima de começar o dia. Pensava
enquanto eu e José voltávamos para o acampamento.
Os animais estavam em forma, encostados na velha cerca abandonada. Já não lembrava mais
qual deles era a mulinha que eu tinha montado na manhã anterior. Ao meu redor
todos iam colocando os seus buçais nas
suas respectivas montarias, e eu ainda ali, mais uma vez, parado e rindo do Divino que
trabalhava recitando a letra de uma conhecida música sertaneja como se fosse
um poema de amor.
“Eu
quero que risque meu nome da sua agenda,
Esqueça o
meu telefone, não me ligues mais...”
Divino lembrava um vilão de filme de faroeste. Aparentava ter uns sessenta e poucos anos. Cultivava um grosso bigode preto e, embora não fosse negro, sua pele era bastante queimada de sol. O lado esquerdo da face era tomado por uma cicatriz que começava um pouco acima do bigode e terminava num olho estático, provavelmente de vidro. O chapéu de palha tinha abas inclinadas para cima, num desenho que só ele usava. Parecia, até então, ser um homem muito sério e reservado. Mas, homens sérios e reservados não declamam poemas a esta hora da manhã. Ao contrario de mim, Divino se sentia em casa. Tinha desenvoltura de um menino quando lidava com os animais da tropa.
Divino lembrava um vilão de filme de faroeste. Aparentava ter uns sessenta e poucos anos. Cultivava um grosso bigode preto e, embora não fosse negro, sua pele era bastante queimada de sol. O lado esquerdo da face era tomado por uma cicatriz que começava um pouco acima do bigode e terminava num olho estático, provavelmente de vidro. O chapéu de palha tinha abas inclinadas para cima, num desenho que só ele usava. Parecia, até então, ser um homem muito sério e reservado. Mas, homens sérios e reservados não declamam poemas a esta hora da manhã. Ao contrario de mim, Divino se sentia em casa. Tinha desenvoltura de um menino quando lidava com os animais da tropa.
― A sua é aquela ali. ― Disse
João enquanto apontava a mulinha cor de café. ― Quer que eu ponha o buçal pra
você?
― Não precisa, João. Acho que eu
dou conta. Só não tenho tanta certeza.
Sempre
tive preconceito com burros e mulas. Desde pequeno ouvia relatos de que “o
bicho é tinhoso e traiçoeiro”. Mas
aos poucos estou mudando minha opinião. Os dois animais que montei ontem são
tão mansos quanto os cavalos do Corixão.
Nada de movimentos bruscos, nem
sustos. Portanto não tive dificuldade em colocar o buçal na mulinha cor de café. Agora só faltava Kelé pegar os seus
quatro animais.
Levei a mula para perto de onde
estavam as minhas tralhas, e, sem grandes dificuldades, deixei-a pronta para
ser montada. O único empecilho foi eu ter esquecido as cordas de amarrar a rede
dependuradas nas arvores. Elas deveriam estar dentro da minha mala, que há essa
altura já estava sendo acomodada por Kelé nos burros de carga. Também já estava
ficando com calor, ainda vestido com o casaco de couro que também deveria estar
guardado na mala. Teria de carregar esses objetos na minha montaria, correndo
risco de perdê-los. Enrolei então o casaco como um charuto, e enrolei em volta
as duas cordas, prendendo tudo em seguida entre a cabeça do arreio e o coxonilho.
Deu certo. (Continua)

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