Sobre o pequeno fogão à lenha improvisado havia uma
panela com todas as sobras do jantar.
Os outros viajantes também se achegavam, um a um,
para a beira do fogo. Todos agiam com calma e falavam baixo até José se juntar
à roda e se dirigir á mim sem economizar no tom de voz.
― Bom dia, jornalista! Viu a mula-sem-cabeça?
― Ele já acorda fazendo piadas? ―
Graças a Deus, não. A que eu vi estava completa. ― Respondi sem ficar, de forma
alguma, ofendido com a brincadeira.
Acho que ficamos por ali mais de meia-hora
numa conversando até que o sol despontasse no horizonte. Sobre as sobras
do jantar, na grande panela, haviam três colheres que os companheiros revezavam
para comer. Um dava uma bocada e deixava a colher para o próximo, no mesmo
lugar. Eu apenas olhava. Não tinha fome tão cedo.
Com o sol revelando, mais uma vez, a rusticidade
do lugar, fui acometido pela certeza de que aquela seria, sem dúvida, a maior
aventura de minha vida.
Voltei para a minha rede e me apressei em
preparar a bagagem. Para facilitar, deixei no chão o dobro verde, enquanto ia
dobrando e guardando, primeiro o cobertor e depois a rede e o mosquiteiro. Em
seguida entreguei a mala à Kelé, que a empilhou junto com outras que já estavam
sob sua responsabilidade, junto às bruacas
da cozinha.
Notei que José se afastava do grupo e presumi
que ia buscar a tropa.
― Quer ajuda? ― Perguntei.
― Vou repontear
a tropa. Pode vir se quiser.
A barra da calça já estava encharcada pela
umidade da vegetação salpicada de orvalho, como uma garoa fina tivesse caído há
pouco. O sol estava nascendo atrás da serra, entretanto, o frio e o vento
matinal ainda causavam arrepios enquanto caminhávamos em direção há alguns
pequenos vultos disformes há um quilômetro, mais ou menos. O sinete do polaqueiro ecoando distante denunciava
que estávamos na direção correta.
― Jornalista, você vai por ai e reponteia aqueles que estão lá na
frente. Eu vou buscar aqueles outros, enquanto isso. ― Disse apontando um grupo de animais próximos ao capão
de mato a uma considerável distância de nós.
Continuei o percurso, como combinando, me
preocupando em fazer uma volta longe dos animais para não assustá-los e para
que não fugissem na direção contrária. Quando já me encontrava na retaguarda
comecei a bater palmas e gritar, tocando-os de volta para o acampamento. Como
um rei e os seus súditos, a tropa seguia atrás do velho polaqueiro na direção exata do acampamento. Embora não corressem,
eram naturalmente mais rápidos que eu, que nesta altura já ficara há boa
distância para trás.
Enquanto olhava ao redor, para conferir se não
deixava nenhum animal, tive uma desagradável surpresa. Um dos burros parecia
estar fugindo na direção oposta. Olhei para o resto da tropa e julguei que eles
chegariam sozinhos ao acampamento. Então comecei a correr atrás do fugitivo
antes que ele fosse mais longe.
Já estava quase exausto de correr com aquela
velha bota na areia fina, pulando, vez ou outra, os arbustos que insistiam em
cruzar o meu caminho. Parei surpreso com o que via. O animal tinha acabado de
pular a cerca e se embrenhara no mato. Mas
burros não pulam cercas. Pelo menos não com essa desenvoltura. Só então
ouvi os gritos incompreensivos de José, que até então estiveram, sem querer ignorandos, no calor da correria. (Continua)

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