Capítulo 02, Parte 02


Sobre o pequeno fogão à lenha improvisado havia uma panela com todas as sobras do jantar.
Os outros viajantes também se achegavam, um a um, para a beira do fogo. Todos agiam com calma e falavam baixo até José se juntar à roda e se dirigir á mim sem economizar no tom de voz.
― Bom dia, jornalista! Viu a mula-sem-cabeça? ― Ele já acorda fazendo piadas? ― Graças a Deus, não. A que eu vi estava completa. ― Respondi sem ficar, de forma alguma, ofendido com a brincadeira.
Acho que ficamos por ali mais de meia-hora numa conversando até que o sol despontasse no horizonte. Sobre as sobras do jantar, na grande panela, haviam três colheres que os companheiros revezavam para comer. Um dava uma bocada e deixava a colher para o próximo, no mesmo lugar. Eu apenas olhava. Não tinha fome tão cedo.
Com o sol revelando, mais uma vez, a rusticidade do lugar, fui acometido pela certeza de que aquela seria, sem dúvida, a maior aventura de minha vida.
Voltei para a minha rede e me apressei em preparar a bagagem. Para facilitar, deixei no chão o dobro verde, enquanto ia dobrando e guardando, primeiro o cobertor e depois a rede e o mosquiteiro. Em seguida entreguei a mala à Kelé, que a empilhou junto com outras que já estavam sob sua responsabilidade, junto às bruacas da cozinha.
Notei que José se afastava do grupo e presumi que ia buscar a tropa.
― Quer ajuda? ― Perguntei.
― Vou repontear a tropa. Pode vir se quiser.
A barra da calça já estava encharcada pela umidade da vegetação salpicada de orvalho, como uma garoa fina tivesse caído há pouco. O sol estava nascendo atrás da serra, entretanto, o frio e o vento matinal ainda causavam arrepios enquanto caminhávamos em direção há alguns pequenos vultos disformes há um quilômetro, mais ou menos. O sinete do polaqueiro ecoando distante denunciava que estávamos na direção correta.
― Jornalista, você vai por ai e reponteia aqueles que estão lá na frente. Eu vou buscar aqueles outros, enquanto isso. ― Disse apontando um grupo de animais próximos ao capão de mato a uma considerável distância de nós.
Continuei o percurso, como combinando, me preocupando em fazer uma volta longe dos animais para não assustá-los e para que não fugissem na direção contrária. Quando já me encontrava na retaguarda comecei a bater palmas e gritar, tocando-os de volta para o acampamento. Como um rei e os seus súditos, a tropa seguia atrás do velho polaqueiro na direção exata do acampamento. Embora não corressem, eram naturalmente mais rápidos que eu, que nesta altura já ficara há boa distância para trás.
Enquanto olhava ao redor, para conferir se não deixava nenhum animal, tive uma desagradável surpresa. Um dos burros parecia estar fugindo na direção oposta. Olhei para o resto da tropa e julguei que eles chegariam sozinhos ao acampamento. Então comecei a correr atrás do fugitivo antes que ele fosse mais longe.
Já estava quase exausto de correr com aquela velha bota na areia fina, pulando, vez ou outra, os arbustos que insistiam em cruzar o meu caminho. Parei surpreso com o que via. O animal tinha acabado de pular a cerca e se embrenhara no mato. Mas burros não pulam cercas. Pelo menos não com essa desenvoltura. Só então ouvi os gritos incompreensivos de José, que até então estiveram, sem querer ignorandos, no calor da correria. (Continua)

Nenhum comentário:

Postar um comentário