30 de julho de 2008
O Cangaceiro do Pantanal
O alaranjado reluzente e trêmulo iluminava a copa frondosa, dando a ela um aspécto vivo e acolhedor. Ao redor tudo era escuridão, mas Kelé já se incumbira de acender o fogo da trempa e de preparar o café. Marcindo se juntara a ele. Agora conversavam em voz branda, sentados à beira do fogo.
Eu, deitado ainda em minha rede, contemplava as sombras gigantescas desenhadas em meio ao brilho do fogo. Pensava no tamanho da enrascada em que tinha me metido. As pernas doloridas pareciam ter andado todo o percurso do dia anterior à pé. Por que doem tanto? Presumi que havia alguma dificuldade para o sangue chegar aos pés, já que o formato côncavo da rede os deixavam na mesma altura da cabeça. Eram incomodas também as dores nas costas e nas costelas, ocasionadas pelo frio que se intensificava ainda mais à medida que o amanhecer se aproximava. Passara a noite tendo espasmos de tremor.
Devia ser imprudente continuar deitado. Não tinha experiência em juntar e guardar as minhas tralhas. Corria o risco de atrasar, a mim e a todos os outros. Mesmo assim, antes de levantar, alcancei a escova e o creme dental nos meus pequenos alforges que propositalmente deixei dependurado no fio do mosquiteiro. Sob a rede alcancei o cantil apoiado nas minhas botas. Um dos poucos privilégios de se estar no meio do mato era poder escovar os dentes sem precisar se levantar. Se bem que duvidava que fizesse alguma diferença escovar os dentes e depois enxaguar com aquela água verde.
Antes de calçar as botas, exitei, por alguns instantes, acometido por uma súbita lembrança de tempos atrás, quando passava férias no Corixão.
***
Embora o buçal estivesse devidamente encaixado na cabeça do animal, a outra extremidade da corda permanecia solta, pousada na grama, bem próxima ao piso rústico de tijolos à vista. O galpão, onde se guardava as tralhas de arreio, era coberto, mas não tinha paredes. O velho cavalo pantaneiro, não se sabe se por costume ou por mera apatia, jazia imóvel, como se acreditasse estar amarrado ao esteio de aroeira à sua frente.
As tralhas repousavam em cavaletes de madeira na ordem inversa de como eram colocadas nos animais. Os baixeiros, por exemplo, ficavam mais acima. Nesse dia, quando puxei os baixeiros do cavalete, acabei derrubando o conjunto da cabeçada (freio e buçal), que estava logo abaixo. Imediatamente atentei-me para o perigo camuflado em meio às tiras de couro. A danada da jararaca, uma das mais temidas serpentes do Pantanal, estava quase imperceptível. Felizmente ela parecia tão despreparada quanto eu para aquele contato repentino. Não demonstrou nenhuma reação. Ficamos apenas imóveis. Os três.
***
Com a lanterna, examinei, assiduamente, o chão ao redor da rede e o interior da minha bota. Por um momento cheguei a acreditar que a serpente das minhas recordações estava escondida ali em algum lugar.
As primeiras tarefas do dia não eram tão simples por conta da escuridão. Pretendia deixar tudo guardado logo, mas o condutor, percebendo que eu já estava acordado, gritou de lá:
― Venha tomar café, jornalista!
As xícaras mergulhadas em água e o cabo de concha estavam agora à minha disposição, e eu já sabia exatamente como proceder para tomar o café. Muito saboroso, devo insistir! (Continua)

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