Sem muito jeito consegui armar a minha rede em um galho mesmo. Ela estava um tanto côncava para se dormir, mas eu só ia descobrir isso quando era tarde. Depois de a rede devidamente armada e com o mosquiteiro de filó, e depois das minhas tralhas penduradas ali perto, ajudei José a conferir a cerca do mangueiro para ver se não tinha nenhum arame arrebentado por onde os animais pudessem fugir. Parecia que estava tudo em ordem. Depois o peão me incumbiu de buscar gravetos secos e lenha para o cozinheiro, enquanto ele arrastava alguns postes de madeira.
O sol já estava se pondo quando os outros chegaram. Apressados, alguns começaram a cavar o chão usando o "cavocate" (cavadeira articulada) e a pá de ponta (objetos que faziam parte das tralhas dos cargueiros) para assentar os postes que José havia arrastado. De outro modo não teriam onde amarrar suas redes sob a proteção da copa das árvores do acampamento.
Há tempos que eu estava com sede, mas esperei terminarem as obrigações para depois ir atrás de água. Então, enquanto os outros iam se ajeitando, me dirigi a José.
Há tempos que eu estava com sede, mas esperei terminarem as obrigações para depois ir atrás de água. Então, enquanto os outros iam se ajeitando, me dirigi a José.
— Aonde que eu acho água por aqui?
— Ah, eu vou com você lá. Também tenho que encher meu cantil, e "nóis" aproveita e enche as latas do cozinheiro.
Partimos em direção a uma tapera abandonada que ficava a uns 300 metros. Um pouco antes da velha casa de madeira havia um pequeno açude. Quase não acreditei quando chegamos. A água verde era cheia de lodo e dava pra ver fezes de jacarés boiando. Aliás dava pra ver também, pelo menos, seis ou sete desses animais nadando bem próximos, já que o açude era muito pequeno. Enchi o meu cantil e, já que não havia outro jeito, bebi com gosto. O que não mata, engorda.
— Vamos levar a água pro cozinheiro logo que ele tem que preparar a janta! Depois a gente volta pra tomar banho. — José me lembrava de um outro desafio que teria de enfrentar.
Quando voltamos já estava escuro no pantanal. Deixei minha lanterna acesa na beira do açude direcionada para onde eu tomava banho. Com água um pouco acima do joelho eu tentava me molhar com dificuldade enquanto cuidava os olhos "acesos" dos jacarés bem pertinho. Talvez não fizesse muito sentido tomar banho numa água tão suja, mas presumi que não conseguiria dormir com tanta poeira no corpo. José cantava um "sertanejão bruto" em alto volume, enquanto tomava banho um pouco mais adiante. Para a minha surpresa, Marcindo, que acabara de sair da lagoa e agora estava se vestindo na beirada, não conseguia manter a seriedade e gargalhava, como eu, do show de José.
De volta ao acampamento Kelé já anunciava o jantar. E como era grande a minha fome naquele momento. Com gosto servi duas vezes. Estava tão cansado que terminando de comer já me despedi de todos e me recolhi em minha rede. Mas antes de dormir ainda tinha uma última missão. Com ajuda de uma pequena lanterna, (dessas de recarregar na mão) que deixei pendurada no fio que suspendia o mosquiteiro, comecei as minhas anotações da viagem no pequeno caderninho que, com gosto, guardo até hoje e de onde retirei, o pequeno trecho que segue:
"... só agora, depois que todos os peões jantaram e estão recolhidos em suas redes, vejo o brilho da lanterna de Kelé se dirigindo, sozinho, para o açude. Honestamente, não sei se teria tanta coragem." (Continua)
"... só agora, depois que todos os peões jantaram e estão recolhidos em suas redes, vejo o brilho da lanterna de Kelé se dirigindo, sozinho, para o açude. Honestamente, não sei se teria tanta coragem." (Continua)

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