Capítulo 01, Parte 08

     Embora também fosse jovem (por volta dos 25 anos) João parecia ser o mais sério da turma. Mais até do que o Condutor. Dificilmente fazia brincadeiras e via as coisas sempre por um lado responsável. Tinha bigode e barbicha bem amarelos, e também tinha a pele clara, mas não tanto quanto Kelé.  Carregava sempre um berrante pendurado em um dos ombros, o que lhe denunciava ser o ponteiro (o peão que vai na frente, chamando o gado).
    O almoço estava servido e eu esperando os outros servirem para ver como era. Num dado momento o cozinheiro insistiu:
    — Venha comer, Dener! — Kelé era o único que evitava chamar os outros por apelido.
    — Eu estou esperando os outros pra ver como é e não correr risco de pagar nenhuma prenda. — Abri o jogo logo para que todos ouvissem.
    — Por enquanto você não precisa se preocupar com essas coisas. Você é visita.
    Peguei um dos pratos de metal esmaltado e comecei a servir. O cardápio era arroz branco, paletó (feijão com carne seca) e macarrão com carne (seca também). Nas tampas de todas as panelas haviam alças adaptadas em forma de anéis de arame. Servia para que conseguíssemos retirar as tampas usando apenas um dos dedos da mão que segurava o prato, deixando a outra livre para servi-lo. Assim o fiz.  O problema é que a comida estava muito quente, e em segundos ficou quase impossível segurar o prato de metal. O jeito era fazer malabarismo com as pontas dos dedos para não se queimar. 
     Kelé só comia depois que todos estávamos satisfeitos. Enquanto servíamos ele ficava prestando atenção para ver se não precisávamos de nada. Recomendava que servíssemos também farinha e uma pimenta especial que ele mesmo tinha feito. Eu não fiz desfeita, servi tudo que tinha direito. Estava realmente com fome. Depois me arranjei para comer de cócoras, recostado numa árvore. 
     — Faz assim, ó! — Marcindo me mostrava como encaixou o prato dentro de seu chapéu para não queimar a mão. 
    Ótima solução. Já não precisaria mais comer fazendo malabarismo. Enquanto comia, desajeitado e com as pernas doendo, eu pensava na falta que fazia uma simples mesa ou um simples banco. A impressão era que, dali pra frente, eu iria sentir falta de muitas coisas. 
    Depois de comer não era preciso lavar o prato, mas deveríamos deixá-lo dentro de uma bacia já preparada com água e um pouco de sabão. 
    A sobremesa era rapadura com queijo, mas dispensei. Não gostava muito, nem de um, nem de outro. Depois que todos estavam satisfeitos o cozinheiro começou a lavar a louça dentro da bacia mesmo. Quando terminou começou a recolher tudo. Sempre com uma rapidez de se espantar. 
    Outros dois peões voltavam tocando os animais que ficaram soltos e se afastaram cerca de 500 metros enquanto almoçávamos. Na beira da cerca do aterro fizeram outra forma e o condutor me apontou outro animal para que eu montasse durante a tarde. Era um burro alto, meio avermelhado e também aparentando ser bem velho e manso. Dessa vez eu mesmo coloquei o buçal no animal. 
     Exatamente como pela manhã, depois de os animais encilhados, ajudamos Kelé com as tralhas da cozinha e partimos. Mas desta vez iríamos nos separar. (Continua) 

Nenhum comentário:

Postar um comentário