Capítulo 01, Parte 07

     O jovem se apresentou como Junior e disse que vinha da cidade de Corguinho. Revelou também que tentara a carreira de peão de rodeio, mas que não teve muita sorte. Notei que ele carregava uma arma na cintura, mas preferi não tocar no assunto.
     — Eu tentei ir uns anos na escola, mas não gostei e parei na quarta série. Agora to começando a "boiadear" pra tentar a sorte.
     — Mas você ainda tá novo, ainda tem muito tempo pra estudar se quiser. Quantos anos você tem? — Perguntei verdadeiramente incomodado com o fato de ainda haverem jovens que abrem mão da educação por motivo banal. 
     — "To" com 17, mas não quero nem saber de escola. 
     Enquanto enchia meu cantil aproveitei para tomar um pouco d'água direto da fonte. A água era escura, como se fosse um café fraco. Como pode? Embora a areia da Nhecolândia fosse mais clara do que areia de praia, quando molhada ela tendia a ficar escura, de maneira que, a maioria das lagoas e vazantes possuíam águas escuras e, nos brejos, o barro era sempre preto.
    Não passara mais do que dez minutos que saímos para buscar a água e, quando voltamos, o acampamento estava muito diferente. Com uma vassoura improvisada com galhos e folhas de arvores o cozinheiro limpou o chão da "cozinha". Também havia montado e aceso o fogão. Até a manta de carne seca, que ainda precisava de mais um pouco de sol, já estava pendurada num varal improvisado entre árvores. Agora ele estava cuidando de alguns ingredientes do almoço. 
      — Muito obrigado. Pode pendurar nessa corrente, fazendo um favor! — Ele apontou para um corrente que deixara pendurada em um galho bem próximo do fogão. Nela haviam dois ganchos onde penduramos as duas latas, uma de cada lado. 
      Por mais estranho que isso possa parecer, devo confessar que Kelé me lembrava um daqueles mordomos com hábitos ingleses. Aliás, até mesmo sua aparência contribuía para essa impressão. Tinha a pele bem clara, os olhos bem azuis e uma mansa convicção nas palavras. Parecia gostar muito do que fazia. Demonstrava asseio e nunca reclamava. Enfim, trazia um pouco mais de conforto àquela viagem tão sofrida.
     — Precisa de mais alguma coisa? — perguntei.
     — Não, pode ficar tranquilo! Aproveite para descansar um pouco! 
     Os demais peões também aguardavam o almoço sem ter o que fazer. Alguns conversavam entre si e outros repousavam em meio às suas tralhas de arreio jogadas no chão. Decidi fazer algumas anotações e me arranjei também junto aos meus arreios. Tinha um cheiro forte de suor de animal, mas não me incomodava. O importante era dar um descanso para as pernas.
     — Então "ocê" é jornalista? — Um outro peão se aproximava puxando assunto. 
     — Na verdade não. Estou estudando para virar um. — Respondi me levantando para poder conversar melhor. 
     — E tem que estudar muito? — ele parecia realmente interessado.
     — Alguns anos, mas não é tão difícil. Aposto que é mais fácil do que boiadear.
     — Ah, sei não — respondeu num tom descontraído — pra mim isso aqui que é fácil.
     O rapaz, que aparentava seriedade nas palavras, se apresentou como João. Para minha surpresa, disse também que morava em Campo Grande e que trabalhava com comitivas desde que era adolescente. (Continua)         

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