Como já era de se esperar, a temperatura subiu bruscamente depois que o sol nasceu. Em pouco mais de uma hora o frio se transformou em calor. Já estava sem o casaco de couro, mas não ousara tirar a camisa de mangas compridas, ou sequer arregaçar as mangas. Debaixo daquele sol quanto mais cobertura, melhor. Para amenizar tomava goles de água, vez ou outra, no cantil que também tomara de empréstimo com meu avô. A peça era na verdade uma garrafa plástica (pelo formato parecia ser de óleo de motor de veículos) embalada em algodão cru e rodeada por tiras de couro em forma de cruz. Deveria comportar não mais que um litro d'água que, de gole em gole, já estava acabando. Ao menos sabia que poderia encontrar água na vazante do tarumã, que ficava logo a frente e que eu conhecia por ainda fazer parte do Corixão. Mas, e depois?
Ao longe era possível avistar uma nuvem de poeira na direção em que seguia a estrada. Com o tempo ela foi se aproximando até se transformar numa comitiva com muitas cabeça de gado. Esse momento, em que duas comitivas se cruzam, exige certos cuidados dos peões. Existe o risco de os animais se misturarem. Então, a solução era fazer como veículos numa estrada: cada um trafega de um lado. Durante a passagem alguns peões que se conheciam se cumprimentaram de longe, aos gritos; e o condutor da nossa comitiva se reuniu com o outro condutor e conversaram um pouco. Para minha surpresa, no pantanal havia fartura de comitiva, ainda cruzamos com mais duas, só nesse dia. Depois me lembrei que nos próximos dias ia haver outro leilão, lá mesmo no corixão.
A posição do sol anunciava que chegávamos ao meio-dia e eu já estava ficando, outra vez, sem água. Por sorte não demorou muito e paramos na beira da estrada, próximo a entrada de uma fazenda onde havia uma lagoa. Kelé era muito ágil com as tralhas da cozinha. Rapidamente improvisou um lastro com pedaços de madeira e enfileirou, sobre ele, as bruacas (baús com armação de madeira e recoberto com couro) e o resto da carga dos burros cargueiros que, em seguida, foram soltos junto com o resto da tropa. Os demais peões (incluindo eu) também desarreamos nossas montarias e soltamos os animais. Não se deve usar o mesmo animal durante mais de meio dia. Isso pode levá-lo a exaustão e até mesmo à morte.
— Agora vocês dois vão buscar água pro Kelé lá naquela lagoa! Marcindo ordenou apontando para mim e para o mais jovem dos peões.
Imediatamente fomos até onde Kelé estava ele nos entregou duas latas quadradas de 18 liros, dessas usadas comumente por marcas de tinta. Só que não havia nelas qualquer resquício de tinta, apenas o metal cromado, por dentro e por fora. Havia também, em cada uma das latas, uma alça de arame presa a dois furos nas laterais.
Com muito jeito para não sujar a água, entramos na lagoa em meio às folhas de camalote e seguimos até molhar na altura do joelho. Então, começamos a encher as latas, com cuidado para não deixar entrar sujeira. (Continua)

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