Seguíamos pelo corredor que liga toda a estrutura do leilão do Corixão ao aterro da MS 228. Nós iríamos passar bem ao lado de sede da fazenda, de onde eu saíra de madrugada. Neste momento eu pensava em como deveria estar garboso, montado na mulinha, vestido com o casaco de couro, faixa na cintura e botas de cano longo. Na mão esquerda as rédeas, e na direita um rabo de tatu (um chicote feito de couro trançado cujo nome vem da aparência). Eu estava muito animado. Tão animado que, quando avistei o próximo colchete, parti em galope ultrapassando os companheiros e os animais da tropa para poder chegar primeiro e abri-lo. Tão animado que ao fazer isso acabei esquecendo o rabo de tatu pendurado na cerca. Só me dei conta quando chegávamos no portão que ficava mais de um quilômetro adiante. Nem mencionei intenção de voltar. Não queria causar má impressão logo no começo da viagem. Por sorte, seu Joci, o proprietário do Corixão, passava, bem na hora, no portão da estrada para veículos, que fica ao lado do corredor. Corri e o alcancei.
— Bom dia, seu Joci!
— Bom dia! — ele ficou olhando um tanto desconfiado até me reconhecer. — Ué, virou boiadeiro?
— Pois é, to pretendendo escrever um livro. Mas agora eu to precisando de um favor do senhor.
— Pode falar.
— Eu esqueci um rabo de tatu lá naquela cimbra do corredor. Se o senhor puder avisar o meu avô pra ele buscar depois... eu ia agradecer.
— Pode deixar, eu aviso!
— Então obrigado e até amanhã pro senhor! Me apressei em me despedir porque meus companheiros já estavam se distanciando a minha frente.
Finalmente estávamos no aterro largo da MS 228. Não haveriam portões nem colchetes por pelo menos 20 quilômetros. Muitas pontes de madeira foram construídas para o escoamento das águas na época das chuvas, todavia, como estávamos no inverno, sob a maioria delas não tinha uma gota sequer. Em alguns pontos, a remoção da terra das laterais para a construção do aterro criava desníveis que passavam de três metros. Nós viajávamos, preferencialmente, pelas laterais, na beira da cerca, evitando as pedras do cascalhamento da estrada e, evitando também, passar sobre as pontes, o que poderia ferir algum animal e até provocar acidentes mais graves.
A tropa seguia na nossa frente como se soubessem pra onde estavam indo. Se bem que, já devem ter passado muitas vezes por aqui. Eram 22 animais ao todo. O único cavalo, um velho e magro alazão (pelagem com variados tons de castanha-avermelhados), carregava uma sineta escandalosa, presa por uma cinta de couro em seu pescoço. A peça é chamada de polaco, e o animal que a carrega é o polaqueiro. O movimento do animal faz badalar a sua referência sonora, evitando que os outros animais se percam. O resto da tropa era composto por burros castrados e mulas. Muito mais escandalosos que o polaqueiro eram os burros de carga. Cada um carregava cinco polacos, 15 ao todo. Era uma barulheira difícil de se acostumar. (Continua)

SEMPRE PENSEI Q POLACO FOSSE UM HOMEM DE PELE MUITO CLARA...AGORA, VOU LIGAR À BARULHO...COM CERTEZA,SERÁ CLARO, POREM BARULHENTO...RSRSRSS
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