Capítulo 08, Parte 06


    A cobra estava imóvel e só era possível ver cerca de dois metros do dorso que se estendia para fora da lama. Não conseguimos ver nem cabeça nem cauda. Brayan saltou passando exatamente sobre as costas do animal, sem perceber o perigo.
       - Viu o que você pulou? Perguntei.
        Brayan disse que não e em seguida se virou para olhar, arregalando os olhos assim que percebeu a presença da sucuri.
       - "Eita pêga!"   
       Ficamos ali por um bom tempo admirando o animal, ou pelo menos parte dele. Será que estava morta? Eu imaginava que não. Tinha lido ou assistido em algum lugar que estes animais se alimentavam de uma caça bem grande e depois passavam semanas imóveis, só fazendo digestão.
      Voltamos para onde meu avô estava e comunicamos o fato. Alguns peões até sugeriram de matar o animal para aproveitar a banha que, dizem, ser muito medicinal, mas meu avó era mesmo de paz. Jamais ia perder seu tempo, ainda mais para judiar de um animal que não oferece riscos.                             
       A batalha da roça durou todos os mais de dez anos que meu avô esteve como capataz da fazenda. A custa de muito trabalho era possível colher uma parte da produção. A recompensa por tanto esforço vinha na hora de comer os deliciosos pratos preparados pela dona Dê. Valeu a pena!     


                                                    ***

       Quando nos aproximamos das construções notamos que haviam alguns homens trabalhando gado no mangueirão. Kelé pediu que eu perguntasse se estávamos no lugar certo, e onde poderíamos acampar para o almoço. Enquanto isso ele ia procurando uma sombra para os cargueiros.
        Apeei do montado e cumprimentei cordialmente os homens do mangueiro. Um deles, que acompanhava a minha chegada com atenção, respondeu o bom dia, enquanto os demais apenas acenaram com a cabeça, bastante focados no trabalho.
        - O gado já vem chegando? Perguntou o jovem senhor que, ao meu ver, devia se tratar do capataz da Arco-Íris.
        - Já, sim senhor! Eles devem estar aqui antes do almoço. Eu queria ver com o senhor se a gente pode acampar por aqui? - Perguntei, um pouco tímido.
        - Podem sim. Você podem ficar lá onde era a tapera velha. - Disse o homem apontando para onde estava Kelé com os cargueiros.
       Enquanto seguia para o rumo do acampamento me lembrei que Kelé tinha me mandado fazer duas perguntas e eu só tinha feito uma. Mas devíamos estar na fazenda certa sim. Tomara. (Continua) 
       

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