Capítulo 01, Parte 03


    O mês de agosto se aproximava e o clima pantaneiro lembrava o de um deserto. Durante a noite as temperaturas eram muito baixas e durante o dia ficavam próximas dos 40 graus. Na madrugada, quando o nascer do sol se aproximava, o frio se intensificava ainda mais e se tornava incomodo, sobretudo por estarmos protegidos apenas pelas copas das árvores. Mesmo com jaqueta de couro e botas de cano longo eu tinha espasmos e tremor vez ou outra. 
    Dois peões que acabavam de acordar tomaram o café com pressa e depois seguiram a pé na direção de um capão de serrado, nos fundos do acampamento logo depois de uma cerca. O sol já estava nascendo, possibilitando ver um pouquinho mais longe.
     — Suas tralhas "tão" no jeito, guri? — o condutor ia demorar para guardar o meu nome.
     — Eu acho que não tá faltando nada, seu Marcindo.
     — Deixa eu ver então. Onde você deixou?
     — Ali atrás — respondi já me encaminhando para lá, seguido pelo condutor.
      Após um breve exame, o parecer:
     — Parece que não tá faltando nada, só esta tolda que você vai ter que guardar dento de uma bolsa senão vai acabar rasgando. Vê lá com o Kelé se ele tem uma sobrando!
      Corri até a "cozinha" e perguntei a Kelé se ele tinha a tal bolsa.
   — Deixei umas secando lá na cerca. Pode pegar se quiser. — Embora estivesse apressado com os afazeres da cozinha, o cozinheiro ainda se mostrava atencioso.
      As bolsas a que se referiam eram, na verdade, os sacos de sal para gado que, depois de vazios, eram lavados e estavam prontos para serem reutilizados. Havia meia dúzia deles pendurado na cerca. Peguei um e voltei até onde Marcindo estava.
      — Vamos dobrar direito essa tolda! — disse Marcindo puxando uma das pontas para esticar, sobre o chão, a lona amarela que serviria para cobrir a minha rede caso chovesse. Assim, puxando um de cada lado, não foi difícil dobrar a tolda até que ela ficasse do tamanho ideal para caber dentro do saco.
       —  Agora você deixa o seu dobro (a mala de peão) e a lona lá com o Kelé! Depois pega o seu buçal e espera ali na beira da cerca, que os "guri" já "tão" chegando com a tropa!
       O dia já estava claro quando foi possível avistar os dois que haviam se afastado do acampamento logo depois do café. Na frente deles troteavam os animais, um tanto assustados com os gritos e estalo de "piraim". Tocaram até a beira da cerca onde eu  e os demais esperávamos com os cabrestos nas mãos. Rapidamente outro peão amarrou um laço em um dos postes da cerca, esticando-o diante de todos os animais,  mais ou menos na altura do peito. Estava feita a "forma" (quando todos os animais de montaria ficam enfileirados lado a lado para que sejam escolhidos).
       — Você vai naquela mulinha escura! — apontou o condutor para algum animal que eu não consegui decifrar qual era. Com a minha falta de experiência todos pareciam muito iguais.
       — Me empresta seu buçal?! — pediu um dos rapazes que tocara a tropa. Ele colocou o buçal na mula correta e me disse para segurar a corda até que todos estivessem prontos para sair da forma.
     Essa é outra importante regra de uma comitiva. Se alguém tirar um animal da "forma" os outros vão querer segui-lo, o que pode resultar numa bagunça danada. Portanto ainda fiquei alguns minutos esperando. A demora maior ficou por conta do cozinheiro que, na verdade, precisava de quatro animais: um para montar e três para carregar as tralhas da cozinha.
     Depois que todos os burros e mulas necessários estavam no cabresto, cada um puxou o seu e amarrou perto da sua tralha de arreio. (Continua)

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