Capítulo 01, Parte 02

      — Como é o seu nome, guri? — perguntou o condutor.
     — Meu nome é Dener.
   — Eu sou Marcindo, o condutor. Eu to sabendo. Eu que mando aqui. — explicou imperativo. — Esse aqui é o Kelé, o cozinheiro. Depois de mim é ele que manda. Agora se você quiser tomar café pode servir aí. — Embora excessivamente autoritário, não havia desdenho em suas palavras. Mesmo assim, ao brilho da fogueira a cena ficava ainda mais tensa para mim.
    — Não, obrigado seu Marcindo. Acabei de tomar café no Corixão.                 — Na verdade eu até poderia tomar mais uma xícara, mas sabia da existência de algumas regras para se servir o café em uma comitiva. 
      Alguns dias antes ficara surpreso com as explicações que meus avós e mais alguns peões me deram enquanto tomávamos tereré sob a varanda que liga a casa de madeira à casa de alvenaria, dos patrões. Eles falavam de um tipo de "etiqueta" que deve ser seguido pelos peões durante as viagens. Diziam, por exemplo, que eu não poderia chegar perto do fogão sem estar usando chapéu; ou que deveria deixar a minha bagagem sob a responsabilidade do cozinheiro e pedir permissão sempre que fosse retirá-las ou devolve-las; ou ainda que se desobedecesse alguma dessas regras seria obrigado a pagar uma prenda: buscar água para o cozinheiro, comprar um frango em uma fazenda, tocar a tropa (buscar os animais de montaria), etc.
     Infelizmente tais explicações não incluíram nada sobre servir café. Minha estratégia então era esperar que mais alguém viesse se servir pra eu ver como deveria proceder.
     Não demorou muito e os outros começaram a chegar para tomar café. O primeiro deles cumprimentou a todos e em seguida se dirigiu para a leiteira, tirando de seu interior um cabo de concha com a ponta em forma de "u". Com este objeto ele "pescou" uma das várias xícaras de metal esmaltado mergulhadas em água quente que também estavam dentro da leiteira. Após saciar-se com o café do bule ele devolveu a xícara para onde havia pego. 
       Para mim não havia mais segredos. Ao menos quanto ao café. Pedi então licença para o cozinheiro para também tomar uma xícara de café. 
       — Pode ficar a vontade. — O cozinheiro parecia ser muito mais educado do que o condutor.
         Nem mesmo todas as páginas desta obra seriam capaz de descrever o sabor daquele café. Tinha sabor de aventura. Sabor de uma verdadeira comitiva pantaneira. E o mais saboroso é que eu fazia parte dela. (Continua)    
          
    

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